Um estudo recente aponta para questões estruturais profundas como as principais causas do encarecimento persistente dos alimentos no Brasil. Conforme a pesquisa, em um período de quase duas décadas, o custo da alimentação para o brasileiro aumentou 302,6%, quadruplicando o valor, enquanto a inflação geral do país, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acumulou alta de 186,6%. Isso representa um encarecimento da comida 62% superior à inflação oficial entre junho de 2006 e dezembro de 2025.
Para contextualizar, o pesquisador Palmieri Junior comparou o cenário brasileiro com os Estados Unidos, onde, no mesmo intervalo, os preços dos alimentos superaram a inflação geral em cerca de 1,5%. Ele ressalta que, no Brasil, a elevação dos preços dos alimentos em momentos de crise demonstra uma notável resistência em retornar aos patamares anteriores.
Perda do Poder de Compra e Preferência por Ultraprocessados
A análise detalhada dos grupos alimentícios revela que os itens saudáveis, como frutas e hortaliças, foram os mais afetados. O levantamento indica que a perda do poder de compra é mais acentuada para alimentos in natura. Em 2006, uma família que destinasse 5% do salário mínimo para alimentos conseguia adquirir mais produtos. Hoje, com a mesma proporção, a compra se limita a mais ultraprocessados e menos itens saudáveis.
O poder de compra para frutas caiu aproximadamente 31% entre 2006 e 2026, e para hortaliças e verduras, o recuo foi de 26,6%. Por outro lado, o acesso a refrigerantes aumentou 23,6%, e a compra de embutidos como presunto (+69%) e mortadela (+87,2%) se tornou mais viável. O economista explica que o barateamento dos ultraprocessados deve-se à presença de aditivos industriais com menor variação de preço, além do cultivo em solos voltados à monotonia de poucos grãos, como trigo e milho, transformados em diversos produtos.
Modelo Agroexportador e Insumos Mais Caros
Um dos fatores estruturais apontados para o aumento persistente dos preços é a inserção internacional do Brasil e seu modelo agroexportador. A prioridade dos produtores em vender para o mercado externo, buscando recebimento em dólares, desvia produtos do abastecimento interno. As exportações de alimentos saltaram de 24,2 milhões de toneladas em 2006 para 209,4 milhões em 2025, enquanto as importações cresceram de 14,2 milhões para 17,7 milhões no mesmo período.
Essa vocação exportadora direciona a produção para commodities como soja, milho e cana-de-açúcar, cujas áreas cultivadas mais que dobraram. Em contrapartida, a área dedicada a arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu significativamente. Outro ponto de atenção são os custos crescentes dos insumos agrícolas, como fertilizantes e defensivos, controlados por oligopólios internacionais. Esses custos são repassados aos preços finais, mesmo para produtores que não exportam.
Concentração da Cadeia Produtiva e “Inflação Invisível”
A dependência de insumos e tecnologias controlados por poucas empresas estrangeiras, que dominam mercados globais de sementes, pesticidas e máquinas agrícolas, contribui para a inflação. A concentração também se estende à indústria alimentícia, com poucas marcas detendo grande participação em mercados como margarina e massa instantânea.
O estudo também aborda a chamada “inflação invisível”: produtos que mantêm o preço, mas têm sua qualidade reduzida pela substituição de ingredientes caros por mais baratos, como a diminuição de leite em sorvetes ou de cacau em chocolates. Essa deterioração da qualidade, sem alteração no preço, não é computada pelos índices oficiais.
Propostas para Reverter a Tendência
Para reverter essa trajetória, o estudo sugere caminhos que vão além das políticas econômicas, envolvendo escolhas políticas e distributivas. Entre as propostas estão a reforma agrária, visando tornar a terra mais acessível e promover a soberania alimentar, o que, segundo o autor, também beneficia o capitalismo ao liberar renda para outros setores. Outras sugestões incluem o fomento à agricultura familiar, o incentivo à produção de alimentos saudáveis e a regulamentação do mercado de insumos agrícolas.
Reflexos para o Norte de Minas
As dinâmicas de exportação e o aumento dos custos de insumos agrícolas têm impactos diretos na região do Norte de Minas Gerais, uma área com forte vocação para a produção de alimentos básicos e que também sente os efeitos da dependência de produtos importados. A concentração no mercado de insumos pode limitar o acesso e encarecer a produção para pequenos e médios agricultores locais, influenciando os preços de alimentos essenciais consumidos pela população da região. A busca por uma maior soberania alimentar e o apoio à agricultura familiar são estratégias cruciais para mitigar esses efeitos e garantir o acesso a alimentos de qualidade para os moradores do Norte de Minas.