A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), um dos principais palcos de articulação da direita nos Estados Unidos e no mundo, sediou em 2026 a participação de expoentes da política conservadora brasileira, com destaque para os irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro. O evento, que tradicionalmente serve como termômetro e catalisador de pautas conservadoras, foi utilizado pela dupla para projetar uma visão de realinhamento do Brasil no cenário internacional, buscando fortalecer laços com o chamado “Ocidente livre” e sinalizar para o establishment conservador americano a disposição de uma nova agenda bilateral.
A CPAC como Plataforma de Influência Global
Desde sua fundação em 1974, a CPAC consolidou-se como uma infraestrutura política permanente, conectando base, elites, discurso e estratégia. Mais do que um evento, a conferência tornou-se um método de organização e mobilização da direita, que agora expande sua atuação internacional. A presença de líderes de diversos países, incluindo o Brasil, demonstra o papel da CPAC na exportação de um modelo de articulação e disputa cultural, ao mesmo tempo em que atrai figuras emergentes para o debate conservador global.
O impacto da CPAC vai além dos discursos. A conferência reúne ativistas, think tanks, mídia e financiadores, funcionando como um mecanismo de validação e projeção de lideranças. A edição de 2026 reforçou essa dinâmica, com a participação de figuras brasileiras buscando eco e apoio em um ambiente estratégico para a direita norte-americana.
Eduardo Bolsonaro: A Voz do “Exílio” Político
Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, participou da CPAC USA 2026 em Dallas. Em um segmento de cerca de seis minutos, ele se apresentou como uma liderança conservadora em “exílio”, utilizando o espaço para denunciar o que descreveu como perseguição política no Brasil. Eduardo estabeleceu paralelos diretos entre os acontecimentos políticos brasileiros e o ambiente nos Estados Unidos, com especial menção ao 6 de janeiro, argumentando que a direita brasileira enfrenta um processo de repressão institucional.
Sua fala incluiu críticas ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes, defendendo mudanças estruturais no equilíbrio de Poderes. Eduardo vinculou a eleição presidencial de 2026 a um projeto de retomada conservadora com impacto internacional, buscando projetar a agenda brasileira perante a audiência conservadora americana e reforçando a ideia de uma articulação transnacional da direita.
Flávio Bolsonaro: O Legado e a Nova Geopolítica
Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à presidência, ocupou o palco principal com um discurso mais extenso e estruturado, claramente voltado ao posicionamento eleitoral e geopolítico. Falando em inglês para a plateia conservadora, ele se apresentou como herdeiro direto do capital político de Jair Bolsonaro, criticou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e apresentou uma narrativa estratégica alinhada aos interesses dos Estados Unidos.
Flávio destacou a crise econômica, institucional e de segurança no Brasil, associando-a ao retorno do PT ao poder. Ressaltou a relevância geopolítica do país no hemisfério ocidental, apresentando o Brasil como peça-chave na disputa global com a China, especialmente no controle de minerais estratégicos. Propôs a construção de uma aliança estratégica bilateral, baseada em valores judaico-cristãos e cooperação econômica, além de combate ao crime transnacional.
O discurso teve um forte componente eleitoral e simbólico, com Flávio se lançando como um “Bolsonaro 2.0”. Fez um apelo direto por vigilância e pressão diplomática sobre o processo eleitoral brasileiro, defendendo a transparência como condição para a preservação da democracia. A fala reposicionou o Brasil como eixo de uma articulação conservadora transnacional, conectando disputa eleitoral doméstica, estratégia internacional e guerra cultural.
Diplomacia Paralela e o Convite ao Ocidente
A participação dos irmãos Bolsonaro na CPAC USA 2026 transcendeu a mera presença em um evento. Transformou a conferência em um instrumento de diplomacia política paralela. A mensagem enviada ao establishment conservador dos Estados Unidos foi clara: existe no Brasil uma direita disposta a reorientar o país em direção ao “Ocidente livre”, reabrindo canais de alinhamento estratégico, econômico e cultural. O que se viu em Dallas foi um movimento coordenado de comunicação política voltado a sensibilizar o núcleo decisório da direita nos EUA, com um convite implícito para que esse ecossistema de influência participe do processo de realinhamento brasileiro.
A questão que se coloca não é se essa sinalização será ouvida, mas como será recebida e construída nos centros de poder americanos. A CPAC 2026 abriu uma janela concreta de reposicionamento do Brasil no cenário internacional, com a possibilidade de reconstrução de laços estratégicos com o Ocidente. A convergência entre liderança política, base social e atores de influência global poderá transformar esse discurso em um ponto de inflexão para o país.
Reflexos para o Norte de Minas
A articulação política e a busca por alinhamento estratégico com os Estados Unidos, promovidas na CPAC 2026, podem ter desdobramentos importantes para a região do Norte de Minas. A possível reorientação da política externa brasileira em direção a parcerias mais estreitas com o Ocidente pode influenciar fluxos de investimento, acordos comerciais e a dinâmica geopolítica regional. Empresas e setores produtivos do Norte de Minas que dependem de relações internacionais ou que podem se beneficiar de novas parcerias econômicas devem observar atentamente esses movimentos. A busca por cooperação em combate ao crime transnacional e narcotráfico, mencionada por Flávio Bolsonaro, também pode trazer impactos diretos para as estratégias de segurança pública em estados como Minas Gerais, que compartilham fronteiras e rotas com outras unidades da federação.