A fé, muitas vezes associada a experiências emocionais intensas, encontra seu verdadeiro alicerce na serenidade e na constância, mesmo em momentos de aparente aridez espiritual. Essa perspectiva é defendida pela Conferência Episcopal Espanhola em sua “Nota Doutrinária sobre o Papel das Emoções na Fé”, um documento que busca ordenar e clarificar a relação entre sentimento e crença.
A nota reconhece a importância das emoções na jornada de fé, como a comoção diante do divino e a alegria que pode acompanhar a experiência religiosa. Contudo, adverte que essas emoções não devem ser o fundamento ou a medida última da fé, pois são insuficientes para sustentar aquilo que transcende a experiência humana.
Tomás de Aquino, citado no documento, diferencia a alegria espiritual da mera emoção. A verdadeira consolação, segundo o teólogo, reside no ato da vontade que se volta para o bem amado, independentemente das sensações momentâneas. A consolação sensível, embora útil para atrair, fortalecer e sustentar a alma, não constitui a base da fé.
O Mistério do Silêncio Divino
A ausência de consolação sensível não implica a ausência de Deus. Pelo contrário, pode ser uma oportunidade para um amor mais puro, onde se ama a Deus por Ele mesmo, e não pelos sentimentos que Ele provoca. Essa perspectiva é ilustrada pelo relato bíblico do profeta Elias no monte Horebe, onde Deus não se manifestou no vento forte, no terremoto ou no fogo, mas em uma brisa suave.
A tendência humana de buscar a Deus em manifestações tangíveis, como uma atmosfera específica ou uma palavra inspiradora, pode levar à dependência e à percepção de ausência quando tais sinais cessam. No entanto, as Escrituras e a teologia apontam para uma presença divina que opera também no silêncio e na quietude.
O Tríduo Pascal e a Profundidade da Fé
O Tríduo Pascal, período central da liturgia cristã, é apresentado como um momento propício para vivenciar essa dimensão da fé. A liturgia, com sua austeridade e silêncios prolongados, não busca preencher o espaço com emoção, mas criar um ambiente para que o mistério se revele. A Quinta-feira Santa, a Sexta-feira Santa e o Sábado Santo são momentos de ação real e oculta, de amor e de preparação, que acontecem independentemente da percepção humana.
A fé reduzida à experiência interior torna-se instável. A alma passa a vacilar com o que sente, perdendo a firmeza da vontade. O risco é que a busca por experiências constantes leve a uma fé descontínua e vulnerável, onde o que impressiona se sobrepõe à verdade. É preciso aprender a esperar por Deus onde Ele escolhe estar, mesmo sem sentir sua presença de forma avassaladora.
Permanecer na Realidade da Fé
A lição reside em permanecer, escutar e acolher, mesmo na ausência de impacto sensorial. O silêncio se torna um ponto de encontro, não uma ausência. A fé, despojada da necessidade de sentir para crer, torna-se mais nua e verdadeira. O coração se expande não pela intensidade, mas pela realidade do que se acolhe.
É um chamado a uma alma disposta, não apenas impressionável. Como Elias, é preciso cobrir o rosto e permanecer, pois a presença divina se manifesta na brisa suave. O Tríduo Pascal permanece, fundamenta a vida, e mesmo quando nada se agita interiormente, tudo está acontecendo. Permanecer firme diante da realidade, mesmo sem senti-la, permite que a verdadeira vida siga seu curso.