A adoção do reconhecimento facial em estádios brasileiros está transformando a experiência do torcedor, prometendo maior agilidade no acesso e um reforço significativo na segurança. O Allianz Parque, em São Paulo, foi pioneiro mundial ao implementar a tecnologia em todos os seus acessos em 2023. Segundo a Bepass, empresa responsável pela implantação, a velocidade de entrada do público aumentou em quase três vezes.
### Aumento no Público e Diversificação da Audiência
O impacto da tecnologia vai além da rapidez. O Palmeiras, por exemplo, registrou um aumento de pelo menos 30% no número de sócios-torcedores após a implementação. Marcos Antônio de Oliveira Saturnino, frequentador de jogos com suas filhas, relatou à TV Brasil a praticidade do sistema: “Para nós, é mais prático e rápido, pois compramos on-line, fazemos a biometria facial uma vez e já libera”.
Dados indicam um crescimento na presença de famílias nos estádios. Entre 2023 e 2025, houve um aumento de 32% no público feminino e 26% no infantil, segundo Melchert, da Bepass. A média de torcedores no Brasileirão Masculino do ano passado, que era de 25.531 por jogo, subiu para 26.513 nas partidas realizadas após a obrigatoriedade da biometria facial, um acréscimo de cerca de 4%.
### Segurança e Combate à Criminalidade
O sistema de reconhecimento facial é conectado ao Banco Nacional de Mandados de Prisão. Quando um torcedor com pendências jurídicas tenta acessar o estádio, a Polícia é acionada. No clássico entre Santos e Corinthians, em março, três homens foram detidos na Vila Belmiro: um foragido da justiça por roubo e outros dois por não pagamento de pensão alimentícia.
Projetos como o “Estádio Seguro”, uma parceria entre a CBF e os ministérios do Esporte e da Justiça e Segurança Pública, e o “Muralha Paulista”, em São Paulo, integram os sistemas biométricos a redes de monitoramento. O programa “Muralha Paulista” já identificou e deteve mais de 280 foragidos em arenas paulistas.
Marcelo Teixeira, presidente do Santos, destacou os benefícios para a Vila Belmiro: “Conseguimos cadastrar um número recorde de pessoas e oferecemos, ao mesmo tempo, mais condições de conforto e segurança para os torcedores”. Ele também mencionou a economia gerada pela dispensa da confecção de carteirinhas, estimada em R$ 1,2 milhão anuais.
### Debates sobre Privacidade e Precisão
Apesar dos benefícios, a tecnologia levanta preocupações sobre a privacidade dos dados coletados. Um relatório do “O Panóptico”, projeto do Centro de Estados de Segurança e Cidadania (CESeC), alerta para a vulnerabilização de crianças e adolescentes e o risco de racismo algorítmico. A vinculação da compra de ingressos à biometria é criticada por impor a “datificação” dos torcedores, potencialmente violando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O relatório também cita casos de identificações equivocadas. Em Aracaju, um torcedor negro foi retirado de campo após ser erroneamente identificado como foragido pelo sistema. Pesquisas, como a de Joy Buolamwini e Timnit Gebru, indicam que algoritmos de reconhecimento facial podem apresentar taxas de erro mais altas para mulheres negras em comparação com homens brancos.
### Respostas e Perspectivas Futuras
Em resposta às críticas, a Bepass afirma que os dados biométricos são armazenados de forma vetorizada e que o risco de falsos positivos é extremamente baixo, em torno de um em um milhão. A empresa projeta a expansão da tecnologia para shows e outros eventos, antecipando ganhos em segurança, fluidez e combate ao cambismo.
**Reflexos para o Norte de Minas**
A implementação do reconhecimento facial em estádios, embora concentrada em grandes centros como São Paulo, pode servir de modelo para futuras adoções em outras regiões do país. Clubes do Norte de Minas que buscam modernizar suas infraestruturas e aumentar a segurança e o conforto de seus torcedores podem considerar a tecnologia como um diferencial competitivo. A economia gerada pela dispensa de documentos físicos e a melhoria na gestão de público são fatores que podem atrair a atenção de gestores locais, especialmente em face de eventos esportivos regionais e da busca por maior profissionalização na gestão de arenas.