A ideia de oferecer emprego a pessoas em situação de rua soa como uma solução humanitária e eficaz, conquistando aplausos fáceis e apoio imediato. No entanto, essa abordagem, embora bem-intencionada, pode representar um autoengano, como aponta o especialista Bruno Souza, ex-secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis. A premissa de que um emprego por si só resolve a complexidade da vida nas ruas ignora a raiz do problema para muitos: a dependência química.
A Realidade da Dependência Química
A principal razão pela qual muitas pessoas permanecem em situação de rua não é a ausência de oportunidades de trabalho, mas sim a dependência severa de substâncias como crack e outras drogas. Ignorar esse fato, segundo Souza, não é compaixão, mas sim um distanciamento da realidade. A expectativa de que um indivíduo lutando contra a dependência química consiga manter a estabilidade profissional é, na maioria dos casos, uma fantasia. Mesmo que consigam um emprego momentaneamente, a necessidade química frequentemente leva ao abandono do trabalho, faltas recorrentes e conflitos, não por falta de vontade, mas por uma incapacidade objetiva de sustentar uma rotina.
O Custo do Autoengano Político
Programas que focam apenas na empregabilidade, sem um diagnóstico preciso da dependência química, repetem um ciclo de fracasso. Embora anunciem com entusiasmo o número de contratações, raramente divulgam a taxa de permanência no emprego a médio e longo prazo. Essa omissão estatística revela a fragilidade da abordagem. A conveniência política se sobrepõe à eficácia: oferecer emprego gera manchetes positivas e capital simbólico imediato, enquanto o enfrentamento da dependência química exige decisões difíceis, debates impopulares e medidas como internação e tratamento, que políticos avessos a riscos eleitorais tendem a evitar.
Diagnóstico Correto é Essencial para a Solução
O psiquiatra e ensaísta britânico Theodore Dalrymple, que dedicou décadas ao trabalho com dependentes químicos e pessoas em situação de rua, critica o sentimentalismo que substitui o pensamento sério. Políticas públicas guiadas pela emoção, e não pela realidade, produzem o oposto do que prometem. Negar a centralidade da dependência química leva à criação de políticas que tratam sintomas superficiais, ignorando a doença. É como oferecer uma bengala a quem precisa de cirurgia: a intenção pode ser boa, mas o resultado, salvo exceções, é inócuo.
Um Novo Olhar para a Questão
Levar o problema a sério, com respeito e sem romantização, exige um diagnóstico correto. A pergunta a ser feita não é “quem é contra dar emprego?”, mas sim “estamos realmente interessados em resolver o problema ou apenas em nos sentir bem enquanto ele cresce?”. Sem um diagnóstico preciso da dependência química, as soluções continuarão sendo paliativas, com um custo humano, social e moral cada vez maior para a sociedade.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora a análise do especialista se baseie em experiências de outras cidades, a realidade da dependência química e sua relação com a situação de rua é um desafio presente em todo o Brasil, incluindo Montes Claros e o Norte de Minas. A busca por soluções eficazes na região deve priorizar o tratamento da dependência como pilar central, evitando o autoengano de políticas superficiais que não abordam a raiz do problema. A implementação de programas que combinem suporte social, tratamento de saúde mental e programas de reinserção profissional, com foco na recuperação da dependência, é fundamental para um impacto duradouro e humano.