Uma nova esperança surge para pacientes com câncer. Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) desenvolveram um método promissor para tornar a quimioterapia mais eficiente e significativamente menos agressiva ao organismo. A estratégia inovadora consiste em utilizar nanopartículas de sílica revestidas com ácido fólico para transportar medicamentos quimioterápicos diretamente às células tumorais, minimizando o contato com tecidos saudáveis.
Nova Abordagem Reduz Debilitação do Paciente
Os efeitos colaterais da quimioterapia tradicional, como náuseas intensas, vômitos e queda de cabelo, frequentemente levam à debilitação severa dos pacientes. A doutora Kristiane Fanti Del Pino, autora da tese de doutorado que apresentou a proposta no Instituto de Química (Inqui) da UFMS, explica que o objetivo principal é amenizar esses efeitos adversos. “Não é só algo de estética, que caiu o cabelo… Realmente, o sistema imunológico fica muito abalado e essas pessoas sentem muito mal-estar, mas muito mesmo”, destacou Del Pino.
Mecanismo de “Cavalo de Troia” contra o Câncer
O sistema proposto funciona de maneira análoga a um “Cavalo de Troia”. As nanopartículas de sílica atuam como veículos de alta capacidade para transportar os fármacos Citarabina e Doxorrubicina. O revestimento de ácido fólico funciona como um “ímã”, atraindo as nanopartículas para as células cancerígenas, que possuem uma alta concentração de receptores de folato em sua superfície. Ao se ligarem a essas células, as nanopartículas liberam o medicamento diretamente no local afetado, protegendo as células sadias.
Resultados Preliminares Animadores em Testes Pré-clínicos
A pesquisa, atualmente em fase pré-clínica, já demonstrou resultados animadores. Em testes in vitro, a combinação de fármacos com as nanopartículas apresentou seletividade até 300 vezes maior para células cancerígenas em comparação com células saudáveis. Em testes in vivo com camundongos que desenvolveram tumores, a nova abordagem levou à redução tumoral de até 99,6% e não observou queda de pelo nos animais, um dos efeitos colaterais mais visíveis da quimioterapia convencional. No entanto, a pesquisadora ressalta que mais testes em animais são necessários para confirmar a hipótese de redução de efeitos colaterais como a queda capilar.
Próximos Passos e Busca por Financiamento
Apesar do potencial demonstrado, o estudo ainda requer diversas etapas antes de ser testado em humanos. A pesquisa, que se estende por aproximadamente sete anos, necessita de mais testes para determinar a dosagem correta, o tempo ideal de liberação dos medicamentos, entre outros fatores. A doutora Kristiane Fanti Del Pino expressou o desejo de obter apoio de órgãos de fomento, como CAPES e CNPQ, para dar continuidade ao projeto. “Particularmente, eu gostaria que a gente tivesse algum órgão de fomento… que pudesse nos dar a oportunidade para poder continuar desenvolvendo essa pesquisa”, afirmou.
A continuidade do estudo demandaria uma equipe multidisciplinar, incluindo biólogos e médicos, além de recursos financeiros. A esperança é que o valor e o potencial da pesquisa sejam reconhecidos, permitindo que este avanço terapêutico possa, em alguns anos, chegar ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A pesquisa foi realizada sob a orientação do professor Marco Antonio Utrera Martines e com o apoio da professora Daniele Bogo, ambos da UFMS. Os testes pré-clínicos contaram com a parceria do Programa de Saúde e Desenvolvimento do Centro-Oeste e foram conduzidos no laboratório de biologia molecular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Alimentos e Nutrição (FACFAN) da UFMS.