15 Anos do Massacre de Realengo: Misoginia e Radicalização Online São Fatores-Chave da Violência Escolar no Brasil
Análise de especialistas revela que o ataque, que vitimou mais meninas, teve raízes em ideologias de ódio contra mulheres e comunidades incel, com o agressor sendo um membro ativo.
O massacre ocorrido há 15 anos em Realengo, no Rio de Janeiro, que ceifou a vida de 12 estudantes, é revisitado por especialistas que apontam fatores misóginos como cruciais para a compreensão do crime. A pesquisa indica que a violência extrema em escolas, um fenômeno crescente no Brasil, está intrinsecamente ligada a ideologias de ódio fomentadas em ambientes online.
O Padrão Misógino no Ataque de Realengo
A diferença no número de vítimas do massacre de Realengo é um dos primeiros indícios de misoginia: 10 meninas e 2 meninos foram mortos. Lola Aronovich, pesquisadora e ativista feminista, recorda as explicações superficiais da mídia na época, que atribuíam a maior letalidade entre meninas à suposta lentidão na corrida ou ao fato de sentarem nas primeiras fileiras.
“Testemunhas relataram que o assassino atirava nas meninas para matar e nos meninos para ferir”, detalha Aronovich. Ela adiciona que o agressor era claramente um “incel” (celibatário involuntário), conforme evidenciado por seus escritos e gravações. Na época, grupos masculinistas no Orkut celebravam o crime e viam o assassino como um herói, reforçando a tese de um ataque movido por ódio às mulheres.
Onda de Violência Escolar e a Radicalização Digital
Cleo Garcia, doutora em educação pela Universidade de Campinas (Unicamp), estuda a violência extrema em escolas brasileiras. Seu levantamento identificou 40 ataques entre 2001 e 2024, com um aumento alarmante de 25 casos apenas entre 2022 e 2024. Todos esses crimes foram cometidos por homens.
Segundo Garcia, esses ataques frequentemente se associam a crenças opressoras, como misoginia, racismo e ideologias extremistas. As comunidades online desempenham um papel relevante ao intensificar ressentimentos, frustrações e raiva, onde muitos se veem como vítimas de injustiças sociais e encaram a diversidade como uma ameaça. “A misoginia é um fenômeno multifatorial, envolvendo questões psicológicas e a influência sociocultural, que promove modelos de masculinidade violenta”, explica a pesquisadora.
Lola Aronovich complementa que criminosos com frustração sexual, que se sentem mal por não ter relacionamentos, encontram nesses espaços online um senso de pertencimento, caindo na “estupidez da masculinidade tóxica”.
Desafios e Soluções para a Sociedade
Para a educadora Cleo Garcia, o ambiente escolar é fundamental para o desenvolvimento social e emocional dos jovens. Ela defende a integração entre famílias e escolas, além da criação de canais de comunicação seguros e anônimos para os estudantes expressarem angústias.
No entanto, a especialista alerta para a necessidade de investimentos mais amplos. “Não dá para cobrar só da escola. É preciso mais investimento na área de educação, saúde mental, assistência social e segurança pública”, pondera Garcia. A ativista Lola Aronovich concorda, destacando a importância da investigação policial, da educação nas escolas para debater o que os adolescentes veem na internet, com supervisão profissional e parental, e da regulação das plataformas digitais. “As plataformas lucram com a misoginia e a radicalização dos jovens. Precisamos dar um fim nisso”, conclui Aronovich.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora o massacre de Realengo tenha ocorrido no Rio de Janeiro, a discussão sobre a misoginia e a radicalização online na violência escolar possui reflexos importantes para o Norte de Minas. Escolas e famílias da região, incluindo Montes Claros e cidades vizinhas, enfrentam o desafio de monitorar o comportamento online de jovens e oferecer suporte psicológico e educacional adequado. A conscientização sobre os perigos das comunidades de ódio e a promoção de uma cultura de respeito e diálogo são essenciais para prevenir que tragédias semelhantes se repitam, reforçando a necessidade de investimentos em programas de saúde mental e educação em direitos humanos nas instituições de ensino locais.