Washington, D.C. — Exercícios militares surpresa da China nos arredores de Taiwan, ocorridos recentemente, geram apreensão nos Estados Unidos, que veem as manobras não como meros treinamentos, mas como um ensaio para um potencial bloqueio e invasão da ilha. A dimensão, a intenção e os gatilhos da chamada “Missão Justiça 2025” ainda estão em desenvolvimento, mas já se configuram como uma operação aérea e marítima massiva que visa cercar Taiwan com exercícios de munição real.
Nos primeiros dias das operações, Pequim mobilizou 130 aeronaves de combate e navios de guerra ao redor da ilha. No dia seguinte, 27 mísseis balísticos foram lançados próximos a importantes portos taiwaneses no norte e sul. Cartazes militares chineses intitulados “Martelo da Justiça, Bloqueio e Interrupção” reforçam a tese de que a China está praticando cenários de conflito. Essas provocações militares também causam danos econômicos, pois Pequim interrompeu frotas pesqueiras e o transporte marítimo e aéreo comercial sem os avisos obrigatórios, afetando rotas comerciais cruciais.
A urgência em armar Taiwan é destacada por analistas. Recentemente, um documento desclassificado da era Reagan detalhou as “seis garantias” a Taiwan, enfatizando o fornecimento de equipamentos militares adequados para manter o equilíbrio e promover a paz. No entanto, o contínuo fortalecimento militar chinês, que dura décadas, tem perturbado esse equilíbrio. Nesse contexto, uma venda de armas de US$ 11,1 bilhões entre Taipei e Washington D.C. foi anunciada, superando todas as vendas anteriores da administração Biden. O acordo inclui 82 lançadores HIMARS e 420 mísseis antitanque de longo alcance, capazes de atingir alvos logísticos chineses do outro lado do estreito.
A “Missão Justiça 2025” representa a sexta grande demonstração militar chinesa com o objetivo de cercar Taiwan desde agosto de 2022. A operação envolve todos os ramos militares chineses do Teatro Oriental, responsáveis por qualquer ação bélica contra Taiwan, incluindo mísseis, marinha, força aérea e guarda costeira. Se o histórico se mantiver, as operações militares chinesas podem durar vários dias. Novos sistemas de armas, como o míssil balístico antinavio YJ-20, com alcance superior a 1.600 quilômetros, podem ser demonstrados.
As forças militares chinesas também podem tentar abordar e inspecionar embarcações no Estreito de Taiwan, uma tática já observada contra a navegação taiwanesa. Um incidente particularmente preocupante, negado por Taiwan, foi a divulgação pela mídia estatal chinesa de um vídeo feito por drone sobrevoando o centro de Taipei durante os exercícios. Se confirmado, o drone teria violado o espaço aéreo territorial, uma linha vermelha não cruzada há mais de 67 anos, sinalizando um aumento significativo na disposição da China em correr riscos.
O equilíbrio militar, que na crise de Taiwan de 1996 favorecia os EUA, agora pende para Pequim. Enquanto a Marinha dos EUA opera com grupos de porta-aviões e unidades anfíbias na região, a China desenvolveu a capacidade de atingir forças americanas a menos de 1.600 km de seu território com um intenso fogo de mísseis. A frota chinesa de navios de guerra modernos supera a dos EUA, e sua força de mísseis é estimada em milhares.
Uma guerra entre China e uma coalizão liderada pelos EUA para defender Taiwan seria de intensidade sem precedentes, superando conflitos recentes na Ucrânia ou no Oriente Médio. Enquanto Pequim se prepara há décadas, os EUA e seus aliados estão apenas começando a alinhar suas estratégias. Para dissuadir um conflito, são necessárias capacidade e ações inesperadas. A reconstrução da indústria de defesa, a construção de navios de guerra, o aumento de estoques de munições essenciais e a integração de planejamento de guerra com aliados são medidas urgentes.
A “Missão Justiça 2025” serve como um alerta de que a China está se preparando para a guerra. A questão para 2026 é se os Estados Unidos conseguirão evitar a escalada das tensões na Ásia e defender seus interesses vitais e o sistema internacional que tem beneficiado o país por mais de oito décadas.