A matemática, pilar essencial para o desenvolvimento e a inovação, enfrenta uma crise crônica no Brasil. Essa situação, longe de ser um problema isolado, compromete seriamente o futuro econômico e a capacidade de competitividade do país, aprofundando desigualdades sociais.
Déficit Educacional Revelado por Avaliações
Dados recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022 colocam o Brasil em posição preocupante. Com uma média de 379 pontos em matemática, o país ficou significativamente abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que registrou 472 pontos. Essa lacuna reflete uma dificuldade estrutural na formação dos estudantes brasileiros.
O cenário nacional não é mais animador. O Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2024 aponta que, em 2021, apenas 3,7% dos alunos da 3ª série do ensino médio da rede pública alcançaram o nível de aprendizado esperado em matemática, o menor índice desde 2017. A defasagem começa cedo: avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2021 indicam que apenas 37% dos estudantes do 5º ano e 15% do 9º ano do ensino fundamental atingem o nível desejado.
Desigualdade Amplifica o Problema
A crise na matemática acentua as disparidades regionais e socioeconômicas. Estudantes de famílias de baixa renda, que mais necessitam da educação como ferramenta de ascensão social, são justamente os que menos acessam um ensino de qualidade. Essa realidade perpetua ciclos de exclusão e impede o pleno aproveitamento do capital humano nacional.
As diferenças são gritantes: enquanto 6,9% dos alunos mais ricos demonstram proficiência adequada, o índice cai para 1,5% entre os mais pobres. Zonas urbanas (3,8%) superam as rurais (1,9%). Em termos regionais, os estados do Sul e Sudeste apresentam indicadores ligeiramente melhores, mas o Norte e o Nordeste acumulam déficits que afetam diretamente suas perspectivas de desenvolvimento.
Modelos Internacionais e Potencial Econômico Inexplorado
Países que lideram o ranking do Pisa frequentemente tratam a educação matemática como prioridade nacional, com investimentos em formação e valorização de professores, além de ênfase desde o ensino primário. Essa abordagem estratégica tem impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB).
Um estudo da Fundação Itaú, com apoio do Impa, revelou que atividades ligadas à matemática representam cerca de 4,6% do PIB brasileiro. Em comparação, esse percentual chega a 15%-18% em economias desenvolvidas. A elevação do desempenho brasileiro nesse quesito poderia adicionar até R$ 1,3 trilhão à economia nacional, segundo estimativas.
Matemática como Motor de Inovação e Competitividade
Profissionais com forte base matemática e raciocínio lógico são cada vez mais valorizados no mercado global, impulsionando setores como inteligência artificial, análise de dados e engenharia de ponta. No entanto, a baixa proficiência da força de trabalho brasileira se configura como um gargalo para o crescimento e a atração de investimentos em áreas de alto valor agregado.
Um Plano Nacional para a Matemática
É imperativo que o Brasil reconheça a matemática como um pilar inegociável para seu desenvolvimento sustentável. A implementação de um Plano Nacional de Excelência em Matemática, focado na melhoria do ensino, na valorização docente e na adoção de práticas internacionais, é crucial. A inação representa a perda de competitividade e a perpetuação de desigualdades.
Reflexos para o Norte de Minas
A crise educacional na área de matemática no Brasil pode impactar o Norte de Minas Gerais, uma região com potencial de crescimento em setores que demandam habilidades quantitativas. A falta de mão de obra qualificada em matemática pode limitar a atração de novas indústrias e o desenvolvimento de empreendimentos de tecnologia na região, além de perpetuar as desigualdades sociais já existentes, dificultando a ascensão profissional de jovens locais.