Especialistas em economia e relações internacionais apontam que as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos desempenharam um papel significativo no profundo colapso econômico vivenciado pela Venezuela. Estudos e relatórios de organizações internacionais indicam que essas medidas, conhecidas como Medidas Coercitivas Unilaterais, impactaram diretamente a capacidade do país de gerar receita, acessar mercados e manter suas importações essenciais.
A Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, tem sido alvo de uma série de sanções americanas desde 2017, sob justificativas de defesa dos direitos humanos, promoção da democracia e combate ao narcotráfico. No entanto, especialistas como a economista e socióloga Juliane Furno, da Uerj, argumentam que o objetivo real é “asfixiar experiências políticas que fogem ao controle dos países imperialistas”, buscando gerar instabilidade social para promover mudanças de regime.
Impacto do Bloqueio Financeiro e Comercial
As sanções impostas pelos EUA incluíram o bloqueio financeiro e comercial, que dificultou o financiamento da indústria petrolífera venezuelana, restringiu o refinanciamento da dívida externa e impediu transações monetárias no mercado internacional. Além disso, ativos venezuelanos no exterior foram congelados ou transferidos para o controle da oposição, como no caso do Banco Central da Inglaterra, que confiscou 31 toneladas de ouro avaliadas em US$ 1,2 bilhão.
A Citgo, principal filial da estatal petrolífera PdVSA nos EUA, foi liquidada pela justiça americana para pagar credores internacionais, uma medida classificada por Caracas como “roubo”. Essas ações, segundo Furno, agravaram o quadro, dificultando importações e desestimulando negócios com outros países e empresas.
Recessão e Crise Humanitária
A economia venezuelana sofreu uma recessão de cerca de 75% do PIB entre 2013 e 2022, um período que também viu a emigração de mais de 7,5 milhões de pessoas, aproximadamente 20% da população. Embora a queda nos preços do petróleo em 2014 tenha sido um fator inicial, as sanções abrangentes, iniciadas em agosto de 2017, aprofundaram a crise.
O economista venezuelano Francisco Rodríguez, da Universidade de Denver, reconhece a responsabilidade da gestão interna, mas enfatiza o papel crucial das sanções. “Dizer que os venezuelanos estão fugindo unicamente por causa do regime de Maduro não passa de uma mera retórica que ignora a questão fundamental: o impacto das sanções nas condições de vida”, declarou Rodríguez. Suas pesquisas indicam que as sanções foram um dos principais contribuintes para o colapso econômico e o declínio nos padrões de vida desde 2012.
Colapso da Indústria Petrolífera e Inflação
A dependência venezuelana do petróleo, que representa mais de 95% das receitas de exportação, tornou o país vulnerável à queda nos preços e às sanções. A retração do setor petrolífero, que passou de 11,5% em 2017 para 30,1% em 2018 após o bloqueio financeiro, resultou na perda de US$ 8,4 bilhões em divisas, conforme aponta pesquisa do economista Jeffrey Sachs.
A perda bilionária de receitas foi apontada pelo Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas (Cepr) como o principal fator que impulsionou a economia da alta inflação para a hiperinflação, oficialmente consolidada em dezembro de 2017. A situação piorou com o bloqueio de reservas de ouro e a proibição do acesso ao mercado consumidor americano de petróleo, calculada pelo secretário de Segurança Nacional dos EUA, Jonh Bolton, como uma perda de mais de US$ 11 bilhões em receitas de exportação em 2020.
Sinais de Recuperação e Contexto Político
Um indicativo do peso das sanções é a recuperação econômica observada a partir de 2022, com o relaxamento de algumas medidas sob o governo de Joe Biden. Dados da Cepal indicam um crescimento do PIB venezuelano de 8,5% em 2024 e projetam 6,5% para 2025. A legislação que viabilizou o bloqueio atual foi aprovada em 2014, durante o governo de Barack Obama, que declarou emergência nacional em 2015, justificando sanções sob a alegação de ameaça à segurança dos EUA.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora a Venezuela esteja geograficamente distante, as dinâmicas econômicas e políticas que afetam países com forte dependência de commodities, como o petróleo, servem de alerta para a região do Norte de Minas. A diversificação econômica e a busca por estabilidade em cadeias produtivas são essenciais para mitigar vulnerabilidades a choques externos. A experiência venezuelana ressalta a importância de políticas que promovam a resiliência econômica local e a segurança energética, impactando indiretamente o desenvolvimento de setores como a agricultura e a mineração na região, que também dependem de insumos e mercados internacionais.