O Rio de Janeiro se vestiu de branco para celebrar o Dia de Iemanjá, nesta quinta-feira (02/02). Milhares de devotos se reuniram em diversos pontos da cidade para homenagear a orixá, conhecida como a “Rainha das águas, mares e oceanos”, em cerimônias que misturam fé, cultura e ancestralidade africana, praticadas em religiões como o Candomblé e a Umbanda.
Tradição na Pequena África
A Associação Recreativa Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro marcou o dia com a celebração dos 50 anos do tradicional “Presente para Iemanjá”. A programação teve início às 7h na região da Pequena África, Zona Portuária do Rio, com rituais de saudação aos orixás e um café da manhã aberto ao público. O evento é um marco importante para a afirmação da ancestralidade negra fluminense.
Um cortejo seguiu da Pequena África até a Praça Mauá, de onde partiu uma embarcação carregada de fiéis, vestidos de branco, para entregar oferendas à orixá. Ao longo do dia, a programação cultural incluiu apresentações de samba e outras manifestações artísticas.
Origem Histórica e Reconhecimento Cultural
A tradição de celebrar Iemanjá no Rio de Janeiro remonta à década de 1950, com o evento “Flores para Iemanjá”, idealizado pelo pai de santo umbandista Tatá Tancredo. O costume, que começou com um grupo de religiosos entregando oferendas ao mar, evoluiu e se tornou uma prática popular, influenciando até mesmo a festa de Réveillon em Copacabana.
Sylvia Leandro, chefe da Fundação Palmares, ressaltou a importância desses rituais para o reforço da ancestralidade negra na cidade. “É um enfrentamento que toda a comunidade negra tem feito. Aqui na Pequena África, a gente tem trabalhado também junto ao comitê do Cais do Valongo, para que a gente consiga permanecer aqui, permanecer nesses espaços e demonstrar que o negro ele construiu o Brasil também”, declarou.
Comemorações no Arpoador
Na Zona Sul, a praia do Arpoador foi palco da quinta edição da Festa de Iemanjá do Arpoador. O evento contou com rodas de ritmos e danças candomblecistas promovidas pelo grupo Orin Dudu, no Largo Millôr. O cortejo sagrado teve concentração a partir das 15h, com saída às 16h, próximo à estátua de Tom Jobim.
Além das giras e da entrega de oferendas, o público pôde desfrutar de uma feira gastronômica e de 21 atrações artísticas e religiosas, reunindo cerca de 300 artistas de grupos de jongo e samba. A Prefeitura do Rio, após anos de luta dos povos de terreiro, instituiu a celebração como Patrimônio Cultural Imaterial do município em janeiro deste ano.
Sustentabilidade nas Oferendas
Um aspecto fundamental das celebrações deste ano foi a orientação para que todas as oferendas fossem biodegradáveis, evitando o uso de plástico, vidro ou madeira. Apenas flores e frutas foram direcionadas às águas. Ao final das festividades, equipes e o público realizaram um mutirão de limpeza nas praias e pedras, reforçando o compromisso com a preservação ambiental.
A expectativa para este ano era de aproximadamente 30 mil participantes, superando os cerca de 25 mil presentes no ano anterior, na homenagem à “Mãe cujo os filhos são peixes”.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora as celebrações de Iemanjá sejam uma tradição fortemente enraizada no Rio de Janeiro e em outras regiões litorâneas, a importância do reconhecimento de matrizes africanas e a preservação de sua cultura ecoam em todo o Brasil. No Norte de Minas, onde a diversidade cultural também é presente, eventos como este reforçam a necessidade de valorizar e proteger as manifestações religiosas e culturais de origem africana, promovendo a inclusão e o respeito à ancestralidade.