Rec-Beat celebra 30 anos de resistência cultural e inspira cena de festivais no Brasil
Fundado por Antonio Gutierrez, o Gutie, evento no Recife mantém sua essência de diversidade e experimentação, dialogando com o novo e o tradicional no Carnaval.
Considerado um dos principais polos de resistência cultural e uma vitrine para a música independente e multicultural do país, o Festival Rec-Beat completa 30 anos em 2024. Criado em 1995 por Antonio Gutierrez, conhecido como Gutie, o evento se consolidou em Pernambuco como um espaço de encontro para diferentes públicos, estéticas e gerações, em meio à efervescência do Carnaval pernambucano, que inclui frevos e maracatus.
A edição comemorativa teve início no sábado (14) de Carnaval e segue até a terça-feira (17) no Cais da Alfândega, no Recife. O local se transforma em um território de experimentação, unindo tradições e vanguardas musicais. A programação deste ano destaca artistas como NandaTsunami, AJULLIACOSTA, Carlos do Complexo e Jadsa, além de nomes consagrados como Djonga, Johnny Hooker, Chico Chico, Josyara e Felipe Cordeiro.
As Origens e a Evolução do Festival Rec-Beat
Em entrevista à Agência Brasil, Gutie detalhou a dinâmica e a história do festival. Segundo ele, o Rec-Beat nasceu no efervescente cenário dos anos 90, impulsionado pelo movimento Manguebeat no Recife. “Eu criei uma festa com o nome Rec-Beat, em um casarão no centro histórico da cidade. Na verdade, era um puteiro que recebia marinheiros”, relembrou o fundador, que era jornalista na época.
A ideia se expandiu após uma edição “zero” em São Paulo, em 1993, que levou 12 bandas pernambucanas para a casa de shows Aeroanta. Percebendo a curiosidade do público sobre o som que emergia em Pernambuco, Gutie criou um minifestival durante o Carnaval. Após três edições em um quintal no Centro Luiz Freire, o Rec-Beat foi convidado pela Prefeitura do Recife para fomentar o Carnaval no bairro histórico, expandindo seu alcance da cena local para a nacional, e depois para a América Latina e o continente africano.
“Nós [do festival] temos um olhar bastante periférico, me interessa muito o que acontece nas periferias. Não só a periferia urbana aqui do Recife, mas a periferia mesmo de países, de regiões do mundo, do Sul global”, destacou Gutie, enfatizando o papel dos movimentos periféricos na construção de culturas universais.
A Identidade no Carnaval de Recife
O Rec-Beat acontece em pleno Carnaval, o que, para alguns, pode parecer inusitado. Gutie explica que, no início, havia estranhamento, mas o festival provou não ser “anti-Carnaval”, e sim um complemento. “A nossa proposta se soma à diversidade do Carnaval, então a gente contribui com uma célula dentro dessa, de todas as propostas que o Carnaval apresenta”, afirmou. Ele acredita que o Rec-Beat chegou a influenciar outros palcos e festivais.
A programação deste ano inclui uma novidade: o selo Moritz, um evento focado em DJs nacionais e internacionais, com potencial para se tornar autônomo. Essa iniciativa reflete o DNA do festival, que sempre integrou a eletrônica com manifestações tradicionais como afoxés e maracatus, atraindo um público jovem e garantindo a renovação e o futuro do evento.
Desafios e o Futuro dos Festivais Independentes
Gutie acompanha de perto a cena de festivais independentes no Brasil e no exterior. Ele observa que, após um “boom” pós-pandemia, o setor passou por uma acomodação. “Os grandes festivais são meio predatórios, no sentido de atração de recursos”, explicou, apontando que empresas concentram patrocínios em eventos mais midiáticos, dificultando a sustentação de festivais como o Rec-Beat, que é gratuito.
O fundador citou 2015, período de instabilidade política no Brasil, como um dos momentos de maior perrengue financeiro. No entanto, o festival nunca deixou de acontecer, exceto na pandemia. Hoje, o Rec-Beat diversifica suas fontes de financiamento, contando com a Prefeitura do Recife, Governo do Estado (Fundarpe), Lei Rouanet, Uninassau, Banco do Nordeste do Brasil, Iber Músicas e o Consulado da Alemanha.
“O novo sempre vem!”, concluiu Gutie, ao refletir sobre os 30 anos do festival. Para ele, a missão do Rec-Beat é apresentar novas opções, mostrar que existe vida além da mídia massiva e dos algoritmos, e encorajar as pessoas a apostarem e se jogarem na ideia do novo, sem medo.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora o Festival Rec-Beat seja um marco cultural em Pernambuco, sua trajetória de 30 anos e seu foco na diversidade e experimentação servem de inspiração para a cena cultural de outras regiões, incluindo o Norte de Minas. A capacidade do Rec-Beat de integrar tradição e vanguarda, ao mesmo tempo em que promove artistas independentes do Sul global, pode ser um modelo para eventos em Montes Claros e cidades vizinhas que buscam valorizar a riqueza cultural local e atrair novos públicos.
A experiência de Gutie em superar desafios de financiamento e manter um festival gratuito e relevante, mesmo diante da concorrência de grandes eventos, ressalta a importância de parcerias com órgãos públicos, empresas e instituições diversas. Para o Norte de Minas, que possui um vasto patrimônio cultural e uma crescente cena de artistas independentes, a abordagem do Rec-Beat pode estimular a criação ou o fortalecimento de iniciativas que conectem a identidade regional a novas sonoridades e expressões artísticas, impulsionando o desenvolvimento cultural e turístico da área.