A história recente do Brasil demonstra um padrão recorrente: presidentes eleitos, mesmo com forte apoio popular, enfrentam a queda quando perdem o controle do sistema de poder que os cerca. A análise sugere que o problema não é ideológico ou uma questão de sentimento público passageiro, mas sim a falha em gerenciar a complexa engrenagem política e institucional do país.
Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito diretamente após a redemocratização, simbolizou a reconstrução democrática. No entanto, sua legitimidade popular não foi suficiente para mantê-lo no cargo, pois ele sucumbiu à perda de controle sobre o Congresso Nacional. De forma similar, Dilma Rousseff, que herdou um ciclo político aparentemente sólido, também caiu ao subestimar a necessidade de uma base parlamentar estável para governar.
Esses episódios não são exceções, mas sim a norma no presidencialismo brasileiro. Na prática, o sistema opera como um parlamentarismo informal, onde a governabilidade depende intrinsecamente da formação de coalizões. Sem negociação e uma base de apoio sólida, nenhuma agenda avança, nenhuma reforma é aprovada e a resistência do presidente se torna insustentável. Quando essa engrenagem falha, observa-se o avanço do Poder Judiciário, a instabilidade do mercado e a paralisação do país.
O chamado Centrão, frequentemente alvo de críticas no debate público, é a manifestação mais visível desse mecanismo de poder. Sua existência se deve à exigência do sistema por maioria, que no Brasil é frequentemente construída por meio de arranjos de sobrevivência política, em vez de pactos programáticos claros, como ocorre em democracias parlamentaristas. A falha dessa lógica pode levar a excessos, como evidenciado no escândalo do Mensalão, onde a busca pela governabilidade descambou para a promiscuidade política.
Jair Bolsonaro tentou um caminho alternativo, buscando governar através da pressão pública e da relação direta com sua base, mesmo tendo experiência prévia no Congresso. Contudo, para assegurar sua sobrevivência política, acabou cedendo mais poder ao Centrão do que presidentes anteriores, incluindo a nomeação de Ciro Nogueira para a Casa Civil.
Atualmente, Luiz Inácio Lula da Silva, em seu terceiro mandato, adota uma abordagem distinta. Sua governabilidade não reside em força política própria, mas em um complexo arranjo de contenção que envolve o Congresso, o Judiciário, o mercado e os governadores. Embora o país funcione, a tensão é permanente. Experiências internacionais, como na Alemanha, Dinamarca e Áustria, demonstram que a fragmentação e a perda de governabilidade foram superadas por meio de respostas institucionais, com a formação de grandes coalizões de centro para garantir a estabilidade do Estado.
A lição que emerge dessas experiências é clara: a estabilidade presidencial não provém de discursos inflamados, mas de uma engenharia política eficaz que promova previsibilidade e reduza conflitos. O Brasil se encontra em um momento limiar. Apesar da polarização midiática, o poder real opera por meio de acomodações entre forças moderadas. A carência reside em uma liderança capaz de transformar essas acomodações em um projeto explícito de governo.
A eleição de 2026 será decidida não por quem grita mais alto, mas por quem apresentar uma proposta concreta para o funcionamento do Estado. A disputa não é meramente entre direita e esquerda, mas entre o conflito perpétuo e um Estado funcional. Collor caiu, Dilma caiu, Bolsonaro se rendeu e Lula governa sob contenção. O sistema político brasileiro permanece o mesmo; o que precisa mudar é a forma como ele é ocupado. O país não busca um salvador, mas sim um Estado que volte a operar de maneira eficaz.