O Sambódromo do Rio de Janeiro foi palco de um desfile que transcendeu a folia carnavalesca e adentrou o campo político. A Acadêmicos de Niterói, escola recém-promovida ao Grupo Especial, apresentou o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, uma clara homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A apresentação, que ocorreu durante o primeiro dia de desfiles, gerou intensos debates e já anuncia novas contendas judiciais por parte da oposição.
A temática do desfile buscou exaltar a trajetória do presidente, com alas que faziam referência a momentos marcantes de sua vida e carreira política. A letra do samba-enredo incluiu citações de jingles clássicos de campanha, como “olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!”, e abordou temas que devem permear a próxima disputa eleitoral, como a “soberania” e a “comida na mesa do trabalhador”. O número de urna do PT, o 13, também foi sutilmente representado em versos como “treze dias, treze noites”. A estrela, símbolo do Partido dos Trabalhadores, marcou presença em diversas alas, e o gesto de “fazer o L” foi replicado pelo mestre de bateria e um dos intérpretes do samba.
O desfile não poupou críticas a adversários políticos. Jair Bolsonaro foi retratado de forma satírica como o palhaço Bozo, enquanto Michel Temer foi associado a uma imagem de ladrão da faixa presidencial, em alusão ao impeachment de Dilma Rousseff. Críticos também apontaram que o enredo continha elementos de preconceito contra evangélicos e conservadores, ridicularizados em alegorias específicas.
A presença do próprio presidente Lula no Sambódromo, confraternizando com integrantes da escola de samba e acompanhado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, intensificou as discussões sobre a configuração do evento como propaganda eleitoral antecipada. A oposição, que já havia tentado, sem sucesso, impedir a homenagem através de ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), promete novas medidas após a exibição.
A polêmica levanta comparações com decisões anteriores do TSE. A defesa de Lula argumenta que proibir o desfile seria censura prévia, ecoando um posicionamento da ministra Cármen Lúcia em casos anteriores. No entanto, críticos apontam uma suposta inconsistência nos critérios da corte, que teria censurado um documentário sobre Jair Bolsonaro sem sequer assisti-lo, enquanto o samba-enredo foi amplamente divulgado antes da apresentação.
Analistas sugerem que, caso houvesse uma real possibilidade de o TSE considerar o desfile como propaganda irregular, a oposição poderia sequer ter tentado impedi-lo, seguindo o princípio de não interromper um inimigo em seu erro. A expectativa, portanto, é de que a homenagem carnavalesca não resulte em uma condenação de inelegibilidade para Lula, apesar das evidências de uso político da festa.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora o desfile tenha ocorrido no Rio de Janeiro, as discussões sobre propaganda eleitoral e o uso de eventos públicos para fins políticos têm repercussão nacional e podem influenciar o cenário eleitoral em todo o país, incluindo o Norte de Minas. Decisões do TSE sobre o caso podem estabelecer precedentes importantes para futuras campanhas e para a fiscalização de ações com viés eleitoral em eventos de grande visibilidade. A polarização política refletida no carnaval carioca sinaliza um ano eleitoral intenso, cujos desdobramentos merecem atenção da população mineira.