Em um cenário de crescente tensão internacional, o embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo Castellanos, classificou as recentes medidas dos Estados Unidos (EUA) sobre o comércio de petróleo com a ilha caribenha como uma “política genocida”. Em entrevista à Agência Brasil, em Brasília, o diplomata detalhou o endurecimento do bloqueio econômico que já perdura por 66 anos, com as primeiras ações adotadas após a Revolução Cubana de 1959.
“Sem energia, tudo fica comprometido. O que eles fizeram foi condenar o povo cubano ao extermínio. Um país como Cuba, que precisa de petróleo para gerar eletricidade, simplesmente não pode importá-lo no exercício de seu direito soberano”, afirmou Curbelo, destacando que a soberania de outras nações também é violada pelas ações norte-americanas.
Bloqueio de 66 Anos e as Novas Sanções
O embaixador explicou que o bloqueio, iniciado há mais de seis décadas, foi intensificado durante o primeiro mandato do ex-presidente Donald Trump, com a adição de 243 medidas que, segundo ele, foram mantidas pela administração Biden. A nova Ordem Executiva de Trump, editada em 29 de janeiro, classifica Cuba como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança de Washington, justificando a decisão pelo alinhamento de Havana com Rússia, China e Irã.
Esta ordem prevê a imposição de tarifas comerciais a qualquer país que forneça ou venda petróleo a Cuba, agravando a crise energética. Até 2023, a ilha dependia de derivados de petróleo para cerca de 80% de sua energia, conforme dados da Agência Internacional de Energia (AIE). O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, denunciou a medida em 5 de fevereiro, qualificando-a como mais uma tentativa de derrotar a Revolução Cubana.
Impacto Devastador e a Luta por Sobrevivência
Para Curbelo, a denominação de “genocídio” se justifica porque a política busca privar o povo cubano de seus meios de subsistência. “A economia de um país depende de energia. Com energia, o país se move, cuida dos doentes nos hospitais, produz alimentos, movimenta e transporta a população”, argumentou. Sem o combustível essencial, o país enfrenta dificuldades severas, como longos apagões e a interrupção de voos de companhias aéreas, afetando diretamente o turismo, uma das principais fontes de divisas.
Em resposta à crise, Cuba tem adotado medidas de austeridade extremas, priorizando a proteção da população e serviços essenciais. Isso inclui o trabalho remoto e a eletrificação de hospitais, escolas e residências com crianças que necessitam de eletricidade por questões de saúde. O país também tem investido na ampliação da energia solar, com a instalação de painéis que geraram 1.000 megawatts no ano passado, elevando a participação da energia fotovoltaica de 3% para 10% na geração total diurna.
Solidariedade Internacional e Resistência
A política dos EUA enfrenta “rejeição generalizada” da comunidade internacional, segundo o embaixador. O Movimento Não Alinhado, representando a maioria dos países do Sul Global, emitiu uma declaração rejeitando a ordem americana. Nações como Rússia, China e México têm manifestado solidariedade e prestado auxílio. A China, por exemplo, doou 70 mil toneladas de arroz, enquanto o México enviou mais de 900 toneladas de ajuda humanitária.
Curbelo enfatizou a importância da “solidariedade prática” e da mobilização internacional para apoiar a resistência cubana. “José Martí, o apóstolo da independência cubana, disse que fazer é a melhor maneira de falar”, citou, reforçando que a defesa de Cuba é também uma defesa da América Latina como zona de paz.
O Futuro da Soberania Cubana
Apesar das adversidades, Cuba mantém sua decisão inabalável de defender a soberania e independência. O embaixador reiterou a disposição de manter uma relação respeitosa e dialogar com os EUA, desde que não haja imposição de condições ou interferência em assuntos internos. “A independência e a soberania de Cuba são inegociáveis”, concluiu Adolfo Curbelo.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora a crise energética em Cuba seja um evento internacional, a discussão sobre bloqueios econômicos e a busca por autonomia energética ressoam em contextos regionais como o Norte de Minas. A dependência de fontes externas de energia e a vulnerabilidade a flutuações geopolíticas globais são desafios comuns. A experiência cubana de diversificação para energia solar, embora em um contexto diferente, serve como um lembrete da importância estratégica de investimentos em energias renováveis para garantir a segurança energética e a resiliência econômica de qualquer região, incluindo as cidades e comunidades do Norte de Minas, que também buscam desenvolvimento sustentável e estabilidade frente a cenários econômicos complexos.