O ano de 2026 se inicia sem a expectativa de grandes reviravoltas na política econômica, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI). Em seu Relatório de Acompanhamento Fiscal (RAF) de fevereiro, divulgado nesta quinta-feira (26), a IFI projeta um cenário modesto, com o governo buscando atingir um déficit primário zero, utilizando as margens de tolerância do arcabouço fiscal e exclusões permitidas pela legislação.
### Cenário Econômico e Desafios Fiscais
Apesar de uma inflação mais próxima da meta e de um cenário externo considerado favorável, com câmbio flutuante, altas reservas internacionais e balança comercial positiva, a IFI ressalta que a dívida pública permanece como o principal ponto de atenção. A instituição fiscal avalia que o país precisaria gerar um superávit primário superior a 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para interromper o crescimento da dívida e direcionar mais recursos para investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia. Contudo, essa agenda mais ambiciosa é vista como improvável para 2026, um ano eleitoral, onde reformas estruturais profundas tendem a enfrentar maior resistência.
Alexandre Andrade, diretor da IFI, declarou que o governo buscará controlar algumas despesas e, se necessário, encontrar novas fontes de arrecadação para fechar as contas. “Os números do Poder Executivo são mais otimistas do que os que nós temos aqui na IFI, mas o governo precisa de arrecadação para fechar as contas do ano e entregar a meta de superávit primário de 0,25% do PIB”, explicou Andrade.
### Plano de Financiamento e Perfil da Dívida
O relatório da IFI também analisa o Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026. Um dos objetivos estratégicos destacados é a melhoria do perfil da dívida pública, visando a redução de custos e o alongamento dos prazos de vencimento. No entanto, juros elevados e incertezas sobre o cenário fiscal tornam essa tarefa complexa. A falta de uma ancoragem mais sólida para as expectativas do mercado é apontada como um dos principais obstáculos para a estabilização da trajetória da dívida.
### Resultado dos Estados em Alerta
Outro ponto crítico identificado pela IFI é o resultado primário dos estados e do Distrito Federal. Em 2025, o superávit estadual caiu para 0,04% do PIB, resultado de um crescimento real das despesas acima do aumento das receitas. Embora o ajuste fiscal maior recaia sobre o governo federal, a IFI enfatiza o papel crucial de estados e municípios no equilíbrio das contas públicas. A deterioração das finanças regionais é preocupante, pois esses entes vinham auxiliando na compensação do déficit do governo central.
O aumento das despesas com pessoal nos estados acende um sinal de alerta, por se tratarem de gastos obrigatórios e de caráter continuado. “Há um risco que nós apontamos: neste ano, deve ocorrer uma desaceleração da atividade econômica, o que afetaria a arrecadação dos estados”, alertou o diretor da IFI. A instituição fiscal sinaliza que, caso ocorra uma reversão no cenário econômico que afete a arrecadação, os estados podem enfrentar dificuldades financeiras significativas.
### Imposto de Importação e Debate Necessário
O relatório também aborda o aumento do Imposto de Importação sobre diversos bens de capital, informática e telecomunicações, medida incluída no Orçamento de 2026. O governo espera arrecadar entre R$ 14 bilhões e R$ 20 bilhões adicionais com essa elevação, visando auxiliar no cumprimento da meta fiscal. Contudo, a proposta é objeto de controvérsia, com questionamentos sobre sua eficácia e possíveis impactos negativos sobre investimentos e a competitividade da indústria nacional.
“O governo utiliza o Imposto de Importação também com fins regulatórios, assim como o IOF. Primeiro, para equilibrar um pouco a balança comercial desses bens. E, em segundo lugar, para conseguir fontes de arrecadação, tendo em vista que o governo precisa, para fechar a meta de resultado primário fixada na LDO, de novas fontes de receita”, explicou Andrade. A IFI defende que o tema necessita de um amplo debate entre governo, Congresso e setores produtivos antes de sua consolidação definitiva.