A escalada de tensões no Oriente Médio, que tradicionalmente impulsiona os preços do petróleo globalmente, pode não se traduzir em um aumento imediato no custo do combustível para os consumidores de Montes Claros e do Norte de Minas. Segundo Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), o impacto nas bombas pode demorar de 60 a 90 dias para ser sentido.
A avaliação de Ardenghy considera a existência de rotas alternativas ao Estreito de Ormuz, uma passagem crucial para a exportação de petróleo do Oriente Médio. Apesar do bloqueio imposto pelo Irã em resposta a ataques, o fluxo de óleo extraído na região não seria totalmente interrompido.
Bloqueio no Estreito de Ormuz e Rotas Alternativas
O Estreito de Ormuz, porta de saída do Golfo Pérsico e ponto estratégico na costa iraniana, teve seu bloqueio determinado em meio ao conflito. Contudo, Ardenghy aponta que países como o Iraque podem bombear petróleo via Turquia. A Arábia Saudita, por sua vez, dispõe de oleodutos que permitem escoar suas exportações para o Mar Vermelho, alcançando os mercados por outra via logística. Os Emirados Árabes Unidos e até mesmo o próprio Irã possuem alternativas para parte de sua produção.
“Há algumas alternativas, não para garantir todo aquele volume que passa no Estreito de Ormuz, mas, pelo menos, para uma parcela importante. Portanto, não haverá mudança de patamar de preço de modo estável, no mínimo, pelos próximos 60 a 90 dias”, avaliou o presidente do IBP.
Brasil como Ator Chave no Mercado Global
O Brasil, já reconhecido como um importante produtor de petróleo, fortalece essa perspectiva de estabilidade. Em 2025, a produção nacional atingiu 3,8 milhões de barris por dia, com exportações de 1,7 milhão de barris. “Há perspectivas, inclusive, de que aumentemos, ainda mais, a nossa produção nos próximos anos”, destacou Ardenghy, mencionando o potencial da Margem Equatorial e da Bacia de Pelotas.
O executivo estimou que o Brasil tem capacidade de suprir uma quantidade significativa de petróleo para o mercado internacional, atuando como um contraponto à escassez vinda do Oriente Médio. “Somos atores importantes e podemos inclusive contribuir com essa falta de petróleo ou essa escassez que venha do Oriente Médio e compensar com a nossa produção atual e a futura. Hoje, o Brasil já é um produtor relevante. Somos o nono maior produtor e o nono maior exportador mundial de petróleo”, pontuou.
Reorientação dos Fluxos e Oportunidade para o Brasil
Ardenghy prevê uma reorientação dos fluxos globais de comércio de petróleo e gás natural, com países altamente dependentes do Oriente Médio buscando diversificar suas fontes de suprimento. Nações asiáticas como Japão, Coreia, China e Índia, que hoje dependem fortemente do petróleo que passa pelo Estreito de Ormuz, são exemplos. “Mesmo que a situação no Oriente Médio se normalize, a gente não sabe se, em médio ou longo prazo, essa situação de normalidade vai continuar ou se vamos ter um outro conflito, inclusive militar”, completou.
Nesse cenário, o presidente do IBP vê um espaço significativo para o Brasil expandir sua atuação no mercado de petróleo e gás. “Somos um produtor confiável de petróleo, temos a presença, no Brasil, de grandes empresas internacionais, a presença também da Petrobras como uma empresa com muita experiência na produção e na exportação de petróleo”, indicou. A manutenção da atividade petrolífera e da pesquisa geológica, especialmente na Margem Equatorial, é vista como crucial para a segurança energética do país e para a geração de divisas por meio da exportação.
Reflexos para o Norte de Minas
A potencial demora no impacto dos preços do combustível é uma notícia relevante para Montes Claros e para toda a região do Norte de Minas. A estabilidade ou o atraso nos reajustes podem aliviar a pressão sobre os custos de transporte, que afetam diretamente o agronegócio, o comércio e a logística local. Empresas de transporte, produtores rurais e comerciantes da região dependem fortemente de preços de combustíveis previsíveis para planejar suas operações e manter a competitividade. A segurança energética do Brasil, reforçada pela produção interna, contribui para um ambiente econômico mais estável, beneficiando diretamente o custo de vida e a capacidade de investimento na economia regional.
