O governo brasileiro relatou dificuldades significativas nas negociações para um acordo global de controle da poluição por plásticos, um tema de crescente preocupação ambiental e de saúde pública. A discussão, realizada na Câmara dos Deputados, na última terça-feira (10), destacou os desafios internacionais e os avanços na regulação interna do país.
Luciana Melchert, representante do Ministério das Relações Exteriores, classificou as negociações iniciadas pelas Nações Unidas em 2025 como “frustrantes”. Ela descreveu as reuniões como tensas e, por vezes, agressivas, em razão dos múltiplos interesses conflitantes. A próxima rodada de debates está agendada para 2027.
Negociações Globais em Xeque
Adalberto Maluf Filho, secretário nacional de Meio Ambiente Urbano, detalhou que, durante esses encontros, a proposta inicial de limitar a produção de plásticos já foi abandonada. Ele também apontou para o contexto internacional complexo, onde países-chave como os Estados Unidos não participam ativamente das negociações.
Guerra Comercial e Preço da Resina
Um dos principais obstáculos identificados por Maluf Filho é a queda acentuada no preço da resina plástica, impulsionada por uma “guerra comercial” entre Estados Unidos e China. “Isso dificulta uma boa parte das medidas para reduzir a sua produção ou aumentar a reciclagem; porque o preço está caindo muito”, afirmou o secretário.
Ações Nacionais e Inovação
No âmbito nacional, o governo brasileiro está desenvolvendo um índice de reciclabilidade do plástico e estudando alternativas para plásticos de uso único, como as colheres de sobremesa. Adalberto Maluf Filho ressaltou que apenas um terço dos municípios brasileiros possui coleta seletiva, evidenciando a necessidade de mais investimentos na infraestrutura local.
O deputado Ricardo Galvão (Rede-SP), membro da Frente Parlamentar Mista Ambientalista, sugeriu que o Brasil pode se destacar na inovação tecnológica. Ele citou como exemplo uma tocha de plasma sul-coreana capaz de incinerar plástico em altas temperaturas sem produzir resíduos tóxicos.
Alerta para Saúde e Biodiversidade
Zuleica Nycz, do Conselho Nacional de Segurança Química, enfatizou a urgência do tema. Segundo ela, já foram identificadas 16 mil substâncias no plástico, com 26% delas apresentando riscos para a saúde humana e a biodiversidade. “Não adianta proibir o bisfenol na mamadeira se a criança vai estar exposta ao bisfenol por muitos outros tipos de plástico dentro de casa”, alertou Nycz.
Dados apresentados pelo governo revelam que 500 milhões de toneladas de plástico são produzidas anualmente no mundo, com projeção de dobrar até 2060. Desse total, apenas 9% são reciclados, 50% acabam em aterros e 22% são descartados de forma inadequada, contribuindo para a poluição ambiental.
Reflexos para o Norte de Minas
Apesar das negociações globais estarem estagnadas, a questão da poluição plástica tem um impacto direto e crescente em regiões como o Norte de Minas Gerais. A baixa taxa de coleta seletiva mencionada nacionalmente se reflete em muitos municípios da região, onde a gestão de resíduos sólidos ainda enfrenta desafios estruturais e de investimento. O descarte inadequado de plásticos contribui para a contaminação de rios importantes, como o São Francisco, e afeta a biodiversidade do Cerrado local. Iniciativas de cooperativas de catadores e programas municipais de reciclagem em Montes Claros e cidades vizinhas tornam-se ainda mais cruciais diante do cenário global, buscando mitigar os impactos ambientais e gerar renda para a população local através da economia circular.