O uso de medicamentos injetáveis como Ozempic e tirzepatida, popularizados como “canetas emagrecedoras”, tem ganhado um contorno preocupante para além do tratamento médico da obesidade. Um novo fenômeno, apelidado de “agonorexia”, emerge nos bastidores das redes sociais, caracterizado pelo uso estético, contínuo e quase competitivo dessas substâncias para atingir metas de peso modestas, como perder poucos quilos ou evitar um ganho mínimo.
Embora o termo “agonorexia” não conste nos manuais psiquiátricos oficiais, relatos sobre o uso dessas canetas para fins estéticos se multiplicam em conversas discretas e compartilhamentos de experiências. O que antes era substituído por dietas restritivas extremas ou jejuns prolongados, agora encontra na farmacologia uma promessa de controle absoluto do apetite.
No entanto, o preço para essa busca por um corpo idealizado pode ser alto. Os usuários relatam uma série de efeitos colaterais físicos, como crises de hipoglicemia com visão turva e mãos geladas, dores de estômago intensas, sensação de plenitude prolongada mesmo após pouca ingestão de alimentos, lentidão digestiva, dores difusas e uma falta de energia notável. A resposta comum a esses desconfortos é a justificativa de que “está funcionando”, transformando a capacidade de suportar o sofrimento físico em sinônimo de eficácia.
Com o tempo, a aparência física começa a refletir o impacto do uso. Ombros curvados, pele sem viço e flácida, e um rosto encovado – apelidado de “Ozempic face” – tornam-se visíveis. A roupa larga, antes um sinal de alerta para o inchaço, agora é um indicativo de “dever cumprido”, enquanto o parâmetro emocional se desloca para a sensação de que a peça justa, mesmo levemente apertada, dispara um alarme interno.
O ciclo se retroalimenta com a busca por uma nova aplicação para aliviar a ansiedade e o desconforto emocional, concentrando o sofrimento no corpo. A questão, contudo, vai além da dependência química ou do medo de engordar. Trata-se de uma reorganização da identidade, onde o peso se torna o eixo central do valor pessoal, transformando o corpo em um projeto a ser constantemente aprimorado.
A aplicação da caneta deixa de controlar apenas o apetite e passa a gerenciar a narrativa interna e a sensação de “ser suficiente”. Surge uma dependência da versão idealizada de si mesmo, não apenas pela calmaria proporcionada pelo medicamento, mas pela promessa de pertencimento, aceitação e alívio da inadequação. Qualquer oscilação no peso, mesmo com a identidade atrelada a esse número, torna-se uma ameaça existencial.
Nesse cenário, o físico e o emocional se entrelaçam. A náusea deixa de ser apenas gástrica para se tornar simbólica, e a fraqueza muscular se confunde com a fragilidade de uma autoestima sustentada por milímetros de tecido. Não se trata de escolher entre o sofrimento físico ou emocional, mas de um ciclo onde um alimenta o outro. A pergunta que paira é incômoda: ao emagrecer para se reconhecer, mas necessitar repetir o processo para se sentir suficiente, busca-se saúde ou a garantia de identidade através da dor?