Ativista que perdeu familiares na ditadura diz ‘Não posso parar’ e impulsiona luta por memória e direitos humanos no Brasil
Homenagem a defensores em São Paulo ressalta desafios na busca por justiça e abertura de arquivos militares, 62 anos após o golpe.
A luta pela memória e justiça no Brasil, especialmente em relação aos crimes da ditadura militar, ganha um novo capítulo com o depoimento da ativista Solange de Oliveira. Filha de Maurício Grabois, que provavelmente morreu em 25 de dezembro de 1973, Solange reitera seu compromisso: “Não posso parar”. Ela conviveu com o pai até os 29 anos, guardando a lembrança de “um homem de princípios que me ensinou a ser uma pessoa digna”.
Nesta semana, o movimento Tortura Nunca Mais realizou a 38ª edição da homenagem a defensores dos direitos humanos, concedendo a medalha “Chico Mendes”. A condecoração, criada como contraponto à medalha do Pacificador do Exército, lembrou neste ano o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves, desaparecido no Araguaia, e a socióloga Yara Yavelber, também assassinada por agentes do Estado. A cerimônia em São Paulo destacou a importância de recordar “as violações que foram cometidas no passado e no presente e de pessoas que lutam contra”, conforme Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, em São Paulo, que também foi homenageada por perder filhos para a violência policial.
Filmes e o Impacto na Consciência Pública
A ativista Victoria Grabois enfatiza o papel crucial dos dois últimos filmes brasileiros indicados ao Oscar que abordaram a ditadura. Segundo ela, essas produções foram fundamentais para “furar a bolha” na sociedade, ampliando a compreensão sobre o período de opressão que completa 62 anos nesta semana. “A Guerrilha do Araguaia, por exemplo, passou a ser mais um fato histórico para as pessoas”, explicou Victoria, destacando o interesse crescente de escolas em aprofundar o conhecimento sobre esse período.
Desafios na Busca por Respostas
Eugênia Gonzaga, presidente da comissão de mortos e desaparecidos, ressaltou a prioridade das retificações de certidões de óbito como uma das medidas de reparação mais importantes. “É uma iniciativa que vem sendo muito bem recebida e a gente quer, então, fazer as 434 retificações para todas as famílias e, se possível, fazer a entrega delas em ocasião solene, com pedido de desculpas”, afirmou Gonzaga.
A presidente criticou a falta de abertura completa dos arquivos das Forças Armadas. “Apesar de muitos documentos já terem sido revelados, já estarem nos arquivos públicos, a gente não tem a versão definitiva sobre o local das mortes, ou melhor, sobre as circunstâncias de muitas das mortes e os locais de enterro de corpos”, lamentou. Para Eugênia, a falha do sistema de justiça brasileiro em não dar respostas definitivas às famílias de mortos e desaparecidos políticos persiste.
Reparação e Memória: Nomes Que Emergem
Além da certidão de Maurício Grabois, estão prontas para entrega hoje as certidões de outros desaparecidos políticos retratados em filmes, como Carlos Lamarca (ex-militar) e Stuart Edgar Angel Jones (filho da estilista Zuzu Angel). A lista se estende a nomes como Antônio Carlos Monteiro Teixeira, Célio Augusto Guedes, Dinaelza Santana Coqueiro, Dinalva Oliveira Teixeira, Eduardo Collier Filho, Esmeraldina Carvalho Cunha, Inocêncio Pereira Alves, Israel Tavares Roque, Joel Vasconcelos Santos, Jorge Leal Gonçalves Pereira, José Campos Barrêto, José Maurílio Patrício, Luiz Antônio Santa Barbara, Mário Alves de Souza Vieira, Nilda Carvalho Cunha, Otoniel Campos Barreto, Pedro Domiense de Oliveira, Péricles Gusmão Régis, Rosalindo Sousa, Sergio Landulfo Furtado, Uirassú de Assis Batista, Vandick Reidner Pereira Coqueiro, Vitorino Alves Moitinho e Walter Ribeiro Novaes, cujas famílias aguardam por essa reparação histórica.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora as homenagens e discussões sobre a ditadura militar ocorram majoritariamente em grandes centros como São Paulo, a busca por memória, verdade e justiça ressoa em todas as regiões do Brasil, incluindo Montes Claros e o Norte de Minas. A importância de preservar a história e de combater a violência estatal é um tema universal. Movimentos locais de direitos humanos e instituições de ensino em Minas Gerais também se engajam na discussão sobre o período ditatorial e suas consequências, promovendo a conscientização e a vigilância contra violações contemporâneas. A educação sobre esses fatos históricos é vital para que as novas gerações, em qualquer parte do país, compreendam a relevância da democracia e da defesa intransigente dos direitos humanos.