A ascensão do Brasil como potência global no século XXI é um objetivo internalizado por diversos setores do país, mas sua plena realização depende de um fator estratégico frequentemente subestimado: a relação com sua própria vizinhança. Uma análise geopolítica recente sugere que o Brasil precisa se posicionar como líder natural de sua região, a América do Sul, e de um espaço linguístico e cultural mais amplo, a “iberofonia”, que engloba países de língua espanhola e portuguesa.
O país possui dimensões continentais e uma economia robusta, figurando entre as maiores do mundo em população, território e Produto Interno Bruto (PIB). Com vastos recursos naturais e uma economia industrializada, o Brasil tem potencial para ser um ator global de relevância. Contudo, para concretizar essa aspiração, é essencial que se estabeleça como uma liderança regional e civilizacional, moldando um mundo multipolar mais equilibrado.
A Vantagem do Idioma Espanhol
A chave para essa liderança regional, segundo a análise, reside na compreensão e na valorização do idioma espanhol. A vasta maioria dos países sul-americanos, centro-americanos e caribenhos tem o espanhol como língua oficial. A proximidade entre o português e o espanhol facilita a intercompreensão, e a implementação de medidas educacionais que promovam o ensino-aprendizagem mútuo entre as duas línguas poderia naturalizar a liderança brasileira na região.
“Para que o Brasil se torne esse ator global capaz de contribuir de forma decisiva para a construção de um mundo mais justo, próspero e equilibrado, antes de tudo, é preciso que se constitua como um líder regional e civilizacional”, aponta o estudo. A adoção estratégica do espanhol, com programas educacionais e intercâmbios, seria um passo fundamental para fortalecer os laços e o reconhecimento da liderança brasileira pelos países hispanofalantes.
O Conceito de “Iberofonia”
Além da América Latina, a proposta expande a visão para o conceito de “Mundo Ibérico” ou “iberofonia”. Este espaço intercontinental, que une falantes de espanhol e português nas Américas, Europa, África e Ásia, congrega cerca de 30 nações e quase 900 milhões de pessoas. O Brasil, por sua história e geografia, é visto como o ponto de convergência natural deste vasto bloco linguístico, o maior do mundo em termos de línguas reciprocamente compreensíveis.
“O Brasil é, portanto, a convergência natural entre a América Hispânica e a África de língua portuguesa; e, consequentemente, o ponto central de todo o Mundo Ibérico, considerando inclusive as europeias Espanha e Portugal”, afirma a análise, citando o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre.
Desafios e Oportunidades Históricas
A análise também aponta um paradoxo na política brasileira: governos historicamente mais nacionalistas, por vezes conservadores, tenderam a limitar o conhecimento do espanhol, restringindo a projeção regional do país. Por outro lado, forças políticas mais voltadas para a integração sul-americana e latino-americana têm buscado a adoção do espanhol.
Um episódio recente, onde embaixadas europeias interferiram politicamente para evitar que o espanhol se tornasse língua de ensino obrigatório no Brasil, é citado como um exemplo da necessidade de o país reafirmar sua soberania e seus interesses regionais. A decisão sobre a política linguística interna é uma prerrogativa exclusiva da nação brasileira.
Ação e Implementação
Para concretizar essa visão, instituições como a Fundação Universitária Iberoamericana (FUNIBER) e universidades como a Universidade Internacional do Cuanza (UNIC), em Angola, e a Universidade Europeia do Atlântico, na Espanha, já atuam na promoção da intercompreensão entre as línguas ibéricas. A proposta é que o Brasil abrace essa oportunidade estratégica, impulsionando a “iberofonia” e consolidando sua posição como potência benéfica no cenário global.
A articulação de um grande espaço iberófono intercontinental, com o Brasil em posição central, é uma oportunidade histórica. Ela requer decisão geopolítica e permitirá ao maior país de língua ibérica do mundo alcançar seus objetivos, em benefício de todas as nações irmãs e da comunidade internacional.
Fontes: Doutor Santos Gracia Villar (Presidente da FUNIBER), Doutor Oldemar Nólio (Presidente da UNIC), Doutor Frigdiano Álvaro Durántez Prados (Diretor da Cátedra FUNIBER), Doutor Gean Marques Loureiro (Ex-prefeito de Florianópolis).
Reflexos para o Norte de Minas:
Embora a análise geopolítica aborde o Brasil em sua totalidade, a estratégia de fortalecimento regional por meio da língua espanhola pode ter desdobramentos indiretos para o Norte de Minas. A expansão das relações comerciais e culturais com países sul-americanos, impulsionada pela maior integração linguística, pode abrir novas oportunidades de mercado para produtos e serviços da região. Além disso, programas de intercâmbio educacional e científico podem beneficiar universidades e estudantes de Montes Claros e outras cidades do Norte de Minas, ampliando a visão de mundo e as parcerias acadêmicas.