A vice-ministra das Relações Exteriores de Cuba, Joana Tablada, negou categoricamente em 2019 qualquer envolvimento militar cubano na Venezuela. No entanto, o decreto de dois dias de luto oficial em Havana por mais de 30 membros dos ministérios do Interior e das Forças Armadas mortos em um confronto recente expõe uma realidade complexa.
Esses militares cubanos estavam em solo venezuelano em missões de assessoria de inteligência e contrainteligência, atuando em defesa de um regime que, segundo relatos, extorquiu liberdades de seus cidadãos, forçando milhões ao exílio. A propaganda oficial cubana, que tradicionalmente omite a participação em operações estrangeiras, desta vez reconheceu a presença desses agentes em Caracas, afirmando que eles realizavam missões a pedido de agências venezuelanas.
O Desastre de 3 de Janeiro
Segundo o jornalista cubano Carlos Cabrera, que conversou com fontes na ilha, o incidente pode ter se originado de um relaxamento na vigilância em um cenário de “guerra”. Os cubanos não faziam parte do círculo íntimo de segurança do presidente Nicolás Maduro, mas sim dos círculos de inteligência e contraespionagem. O aparato de segurança venezuelano teria “interpretado mal” os sinais, confiando excessivamente em suas defesas fortificadas e falhando em detectar a aproximação de forças inimigas.
Relatos extraoficiais mencionam a captura de prisioneiros cubanos feridos, que estariam sendo interrogados nos Estados Unidos. A avaliação incorreta do teatro de operações resultou em um “desastre completo”, segundo Cabrera.
A Antiga Narrativa e o Petróleo Venezuelano
Diante da carnificina, o governo cubano retoma a narrativa de prontidão de suas forças, evocando a resistência em Granada em 1983. Naquele episódio, a decisão pessoal de Fidel Castro foi permanecer no país para não se render às forças americanas, mesmo com a superioridade numérica inimiga.
A colaboração com a Venezuela, iniciada com o Acordo de Cooperação Abrangente em 2000, tornou-se vital para Cuba. Em troca de médicos e tecnologia médica, Havana recebia petróleo venezuelano a preços vantajosos. Essa ajuda, somada à antiga cooperação soviética, ajudou a mitigar os bilhões de dólares em prejuízos causados pelo embargo dos EUA.
Declínio no Fornecimento de Petróleo
Contudo, o fornecimento de petróleo venezuelano tem diminuído drasticamente devido à deterioração da indústria petrolífera do país e às sanções americanas. O economista Omar Everleny Pérez Villanueva aponta que o fornecimento caiu de cerca de 98 mil barris por dia na era Chávez para uma média de 18 mil barris em 2025. Essa redução representa um golpe severo para Havana, que depende desse combustível para evitar uma crise ainda mais profunda e o risco de agitação social.
“Os 32 cubanos que acabaram de morrer morreram por causa do petróleo”, afirmou Everleny à CNN.
Um Futuro Incerto para Havana
A decisão dos Estados Unidos de assumir o governo venezuelano pós-Maduro complica ainda mais a situação para Havana. A Casa Branca já sinalizou que a presidente interina, Delcy Rodríguez, deve cortar o fluxo de ajuda para Cuba. Há um temor em Havana de que o colapso do regime de Maduro possa levar ao colapso do sistema cubano sem necessidade de intervenção militar direta dos EUA.
Um colapso abrupto em Cuba, sem lei nem ordem, poderia gerar ondas migratórias imparáveis em direção aos Estados Unidos. A manutenção das relações entre Caracas e Havana é vista como crucial para o fornecimento de petróleo a Cuba. Caso essa ligação se rompa, Havana enfrentaria um cenário de escassez energética e dificuldades na obtenção de suprimentos médicos, já que a Venezuela é um parceiro importante nesse setor.
O cenário político na Venezuela foi drasticamente alterado, e Havana aguarda os próximos desdobramentos, buscando entender como se reorganizar diante das novas dinâmicas de poder no Hemisfério Ocidental.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora a notícia se concentre nas relações entre Cuba e Venezuela, a instabilidade política e econômica na América Latina pode ter repercussões indiretas para o Norte de Minas. A volatilidade nos preços do petróleo e a reconfiguração de alianças geopolíticas podem influenciar o cenário econômico global, afetando indiretamente o agronegócio e outros setores importantes para a região. Além disso, a migração em massa de países vizinhos, caso a instabilidade persista, pode gerar desafios e oportunidades para a gestão pública e a oferta de serviços em municípios como Montes Claros.