Desigualdade no Acesso à Água Penaliza Mulheres e Meninas no Brasil; Reflexos Chegam ao Norte de Minas
Dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) revelam que, apesar dos avanços, 98,1% da população brasileira tem acesso à água, mas áreas rurais e não brancos sofrem mais, com impactos diretos na dignidade feminina.
Apesar dos avanços significativos no cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil ainda enfrenta profundas desigualdades no acesso à água e ao saneamento. Os dados mais recentes da Agência Nacional de Água e Saneamento Básico (ANA) apontam que, em 2023, 98,1% da população brasileira tinha acesso à água potável segura. Contudo, esse índice mascara realidades distintas em diversas regiões do país e para diferentes grupos sociais.
No cenário nacional, o acesso à água potável cai para 88% nas áreas rurais. As disparidades se tornam ainda mais evidentes nas regiões Norte e Nordeste, onde os percentuais são de 79,4% e 81,9%, respectivamente. O recorte racial também mostra que a população não branca apresenta menores níveis de acesso a esse recurso essencial.
Disparidades Alarmantes no Acesso e Saneamento
O saneamento básico revela um quadro ainda mais desafiador. Em 2023, apenas 59,9% da população contava com esgotamento sanitário seguro. A Região Norte registra o menor percentual, com apenas 39,6% da população atendida. Além disso, o Brasil trata apenas 57,6% do esgoto gerado, o que significa que quase metade dos resíduos é descartada sem tratamento adequado. Essa prática acarreta graves impactos sobre a saúde pública, o meio ambiente e a segurança hídrica do país.
A ANA destacou, em nota, que “mais do que uma questão de cobertura, o problema está em quem ainda fica para trás. Populações em áreas rurais, periferias urbanas e territórios historicamente excluídos concentram os maiores déficits de acesso à água, ao saneamento e à higiene”.
Impacto Direto na Dignidade Feminina
A ausência de serviços adequados de água e saneamento recai de forma desproporcional sobre mulheres e meninas. Segundo a Agência, são elas as principais responsáveis pela coleta de água, bem como pelos cuidados com a casa e a família. Essas tarefas se tornam mais difíceis, demoradas e exaustivas na falta de serviços adequados. Sobrecarregadas, ainda são expostas a sérios riscos sanitários e de violência em contextos de vulnerabilidade.
A ANA ressalta que a falta de acesso à água torna a equidade de gênero uma meta inatingível. Essa carência prejudica diretamente a saúde, a dignidade e as oportunidades das mulheres, ampliando a carga de trabalho não remunerado e limitando o acesso à educação e à geração de renda. “Sem água e sem saneamento, a desigualdade se perpetua”, frisou a agência.
Protagonismo Feminino na Gestão Hídrica
Para Vera Lessa Catalão, professora da Universidade de Brasília (UnB) e ecopedagoga, a preservação dos recursos hídricos no país exige uma mudança no padrão de consumo e o reconhecimento do papel central das mulheres na gestão da água. Conforme explicou a educadora em entrevista à jornalista Mara Régia, do programa Viva Maria, da Rádio Nacional, a gestão da água para as mulheres não é um conceito abstrato, mas uma realidade cotidiana e concreta.
“Elas que providenciam ou que reclamam do direito à água para lavar as roupas, para mandar seus filhos para a escola. Elas fazem uma gestão mais consciente da água, da importância da água como direito”, destacou Catalão. Ela enfatiza o papel feminino como “principais convidadas a pensar que cuidados precisamos ter para que a água nossa de cada dia não nos falte”.
Saneamento e o Futuro Socioeconômico
Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, alertou que o cenário atual de desigualdade no saneamento básico impacta diretamente o futuro econômico e educacional do país. Os grupos mais vulneráveis são, novamente, os mais afetados. “A escolaridade média hoje de uma criança que teve acesso ao saneamento é de 9,5 anos. Uma criança que não teve acesso ao saneamento é de 7,5 anos, ou seja, a criança que tem acesso ao saneamento, ela estuda dois anos a mais”, afirmou Pretto à Rádio Nacional. Essa diferença pode, posteriormente, impactar a renda média e a possibilidade de ingressar em uma faculdade.
Pretto acrescentou que o perfil de quem não tem acesso ao saneamento inclui predominantemente pessoas pretas, pardas, indígenas, jovens de até 20 anos de idade, e indivíduos com baixa escolaridade e renda média.
Reflexos para o Norte de Minas
A realidade nacional de desigualdade no acesso à água e saneamento se reflete diretamente em regiões como o Norte de Minas. Caracterizada por vastas áreas rurais e comunidades historicamente vulneráveis, a região provavelmente enfrenta desafios semelhantes aos apontados pela ANA. Mulheres e meninas de Montes Claros e demais municípios do Norte de Minas, especialmente em comunidades ribeirinhas e periferias urbanas, podem estar sobrecarregadas com a busca por água e expostas a riscos sanitários e de violência. O acesso limitado a esses serviços básicos na região compromete a saúde, a educação e as oportunidades de geração de renda, perpetuando ciclos de desigualdade. A busca por soluções locais e o fortalecimento de políticas públicas que reconheçam o protagonismo feminino na gestão dos recursos hídricos são cruciais para o desenvolvimento sustentável da região.