As eleições de 2026, com o primeiro e segundo turnos em outubro, prometem ser um campo de batalha onde a mera apresentação de propostas ou o domínio das plataformas digitais não serão suficientes para garantir a vitória. A política brasileira tem evoluído, e o que antes era um diferencial — como a eloquência no debate público ou a ocupação de espaço na mídia — perdeu seu peso decisivo. O fator que realmente faz a diferença é a conexão genuína que o candidato consegue estabelecer com o eleitor.
Quando um eleitor não se reconhece minimamente na fala de um candidato, a mensagem, mesmo que ouvida, não se fixa. É nesse ponto que a narrativa da “jornada do herói”, familiar do cinema, ganha relevância no universo político. Essa estrutura ajuda a organizar histórias que o eleitor consegue compreender e acompanhar. Embora dados e pesquisas sejam ferramentas úteis, raramente eles decidem um voto por si sós.
Nunca se produziu tanta informação sobre o eleitor. Relatórios, pesquisas e análises se acumulam em ritmo acelerado, oferecendo um panorama detalhado de cenários, mapeando rejeições e antecipando movimentos. Essas ferramentas são valiosas para orientar decisões, evitar erros estratégicos e ajustar discursos, mas a conexão real com o eleitorado exige mais.
Na prática, a ausência de uma narrativa clara e sustentável pode esgotar rapidamente a comunicação. Sem uma história que ressoe, a empatia enfraquece, e sem empatia, o voto se torna instável. A “jornada do herói”, como descrita por Joseph Campbell, fala de personagens imperfeitos, com conflitos, dúvidas e falhas, que se transformam ao longo de sua trajetória. Essa lógica se alinha melhor ao momento político atual.
Em um cenário marcado por cansaço, desconfiança e um excesso de promessas, o eleitor demonstra pouco interesse por figuras que parecem infalíveis ou excessivamente preparadas. A imagem do candidato que chega com todas as respostas prontas soa distante e, muitas vezes, artificial. Um discurso impecável demais pode, paradoxalmente, gerar desidentificação.
Toda eleição mobiliza dimensões profundas da vida coletiva. O eleitor projeta em cada candidato suas frustrações, expectativas, medos e desejos, buscando ora estabilidade, ora mudança. Campanhas que ignoram essa camada simbólica, mesmo que tecnicamente bem executadas, correm o risco de parecer vazias, cumprindo protocolos sem criar uma ressonância emocional.
Analisar o imaginário coletivo permite entender como um candidato é percebido, para além de sua própria intenção comunicativa. Ignorar essa dimensão leva ao desalinhamento entre a mensagem transmitida e a forma como ela é recebida. A estratégia, nesse contexto, não reside em inventar personagens, mas em organizar a história intrínseca do candidato — com seus conflitos, limites e aprendizados — de maneira coerente com o momento da campanha.
É aqui que dados e inteligência estratégica cumprem um papel fundamental. Eles fornecem a base para o discurso, calibrando a narrativa e evitando dissonâncias. Sem dados, a história perde consistência; sem estratégia, vira improviso. Para 2026, ter uma boa história não é suficiente. Ela precisa dialogar com o clima emocional do eleitor, estar ancorada na realidade e, acima de tudo, encontrar uma audiência disposta a escutar.
A empatia não se constrói por fórmula, mas surge do encontro honesto entre realidade, narrativa e consciência. Campanhas que fazem sentido tendem a ir mais longe do que aquelas que apenas prometem mais. A pergunta central, no fim, não é apenas o que será dito, mas se existe uma história autêntica a ser contada e se o eleitor consegue se reconhecer nela. O voto, afinal, passa pela escuta, e a escuta começa com empatia.