EUA: Defesa Antimísseis em Xeque Após Filme de Hollywood Levantar Dúvidas de Segurança Nacional

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Um filme recém-lançado pela Netflix, “Uma Casa de Dinamite”, dirigido por Kathryn Bigelow, está provocando um acalorado debate nos Estados Unidos sobre a real capacidade do país em se defender de um ataque nuclear. A obra cinematográfica, que aborda o sistema de defesa antimísseis americano, levanta questões sobre a segurança da população diante de ameaças de Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs).

O roteiro, assinado por Noah Oppenheim, sugere um cenário de desolação e vulnerabilidade, onde nem mesmo a maior potência militar do planeta estaria razoavelmente segura em um conflito com nações tecnologicamente avançadas. A trama, que pode ter início com o ataque a uma cidade como Chicago, destaca a aparente impotência diante de um evento catastrófico, mesmo com sistemas de defesa de alta tecnologia.

**Dúvidas sobre a taxa de acerto**

No filme, a eficácia de dois mísseis interceptadores lançados contra um ICBM é retratada com uma probabilidade de acerto de 61% para cada um. Essa baixa taxa de sucesso, mesmo após um investimento de mais de 50 bilhões de dólares no sistema de defesa, surpreende o Secretário de Defesa americano na ficção. A realidade, no entanto, é que nenhum sistema de defesa militar opera com 100% de acerto, e a probabilidade de falha, mesmo com múltiplos interceptadores, é uma constante.

O sistema de defesa antimísseis dos EUA, o Ground-based Midcourse Defense (GMD), conta com 44 interceptadores baseados em terra, com um custo estimado de 63 bilhões de dólares. Oficialmente, o Pentágono afirma que o sistema é projetado para proteger contra lançamentos acidentais e arsenais limitados, como o da Coreia do Norte. Contudo, a Agência de Defesa Antimísseis (MDA) divulgou um memorando interno afirmando que a precisão nos testes tem sido de 100% há mais de uma década, um número que, segundo especialistas, levanta suspeitas dada a natureza probabilística dos eventos.

**Debate no Congresso e a real capacidade de defesa**

A polêmica gerada pelo filme extrapolou as telas e chegou ao Senado dos Estados Unidos. O senador democrata Edward J. Markey enviou uma carta ao Secretário de Defesa em outubro de 2025, exigindo informações detalhadas sobre o histórico do GMD, incluindo sucessos e falhas. Markey também solicitou dados sobre a realização de testes que simulem cenários reais, considerando a existência de iscas e sistemas de dissimulação em mísseis inimigos, além de comprovações da alegada eficácia de 100% e planos futuros para testes do sistema.

Especialistas apontam que a mensagem principal do filme pode ter sido alertar sobre o perigo global de uma guerra nuclear, mais do que retratar fielmente a capacidade de resposta americana. A decisão sensata em uma situação de falha de interceptadores seria o lançamento de múltiplos mísseis defensivos, em vez da resignação diante da catástrofe.

**Um alerta sobre a diplomacia global**

Apesar das críticas sobre o despreparo psicológico de personagens e a inércia em momentos cruciais, “Uma Casa de Dinamite” é considerado um filme relevante por sua originalidade na apresentação de protocolos de ação e gerenciamento de crises. Além disso, ele reforça a importância da diplomacia e de instituições supranacionais como a União Europeia e a ONU na prevenção de conflitos globais.

Independente do desfecho de qualquer obra de ficção, a realidade de uma guerra nuclear entre potências com armamento de alta tecnologia é a de que nenhum país estaria seguro. A certeza dessa vulnerabilidade mútua, argumentam alguns, pode ser um fator dissuasor, como discutido em artigos sobre os 80 anos sem uma guerra mundial, possivelmente graças à própria existência da bomba atômica.

O artigo é uma análise de Dinis Gomes Traghetta, doutor em Física e professor.

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