O que aconteceu
A onda de feminicídios e a crescente violência contra a mulher no Brasil têm gerado um intenso debate público. Contudo, a predominância de discursos que atribuem a culpa exclusivamente ao “machismo estrutural” é vista por especialistas como uma simplificação excessiva de um problema multifacetado.
Diagnósticos Superficiais e a Moda do “Estrutural”
Nas últimas semanas, a discussão sobre feminicídio tem sido dominada pela ideia de que o machismo, ou o “machismo estrutural”, seria o principal, senão o único, culpado. Essa unanimidade, observada em esferas políticas, midiáticas e acadêmicas, reflete, segundo o professor de Direito Constitucional Pedro da Silva Moreira, a adesão a uma “moda” explicativa que se apoia em olhares abstratos e estruturais. Moreira critica a tendência de organizações zelarem mais pela própria reputação do que pela profundidade da análise, defendendo uma abordagem pessoal e responsável sobre temas de tamanha gravidade.
Violência “Democrática” e a Fragilidade dos Laços
Moreira argumenta que, se a violência doméstica e o feminicídio estão em ascensão, atribuir isso unicamente a uma cultura patriarcal em decadência é contraintuitivo. Ele observa uma “violência mais democrática”, com autores e vítimas de perfis variados, e aponta a fragilidade dos laços afetivos como um fator crucial. A debilidade moral em lares, a incompreensão sobre o amor, a finalidade do sexo e a dimensão moral das relações contribuem para um ambiente agressivo, especialmente entre jovens. A educação sexual, segundo ele, deve ir além da prevenção a gravidez e doenças, abordando a complexidade do sexo como fonte de dor, prazer, frustração ou crescimento.
O Papel Crucial da Família e da Função Paterna
A análise de Moreira aprofunda-se na importância da estrutura familiar e, em particular, na função paterna. Ele critica a abdicação da orientação parental em favor de uma “liberdade sexual sem julgamento”, argumentando que pais e mães devem guiar os jovens na calibragem de seus sentimentos e na compreensão da seriedade das relações. A ausência do pai, que historicamente detinha a responsabilidade pelo bem-estar moral e financeiro da família, é vista como um fator que contribui para a disseminação da violência. O pai, como espelho para o filho homem e figura de autoridade e exemplo, tem um papel fundamental em ensinar o respeito, a justiça e a moderação, evitando o isolamento e o abandono.
A “Besta” e a Contradição Cultural
O professor traça um paralelo entre o homem que não controla seus instintos e se torna “escravo dos seus desejos” com a “besta” ou “fera” descrita na filosofia clássica. Esse indivíduo, incapaz de agir com juízo e vendo o outro como objeto, recorre à agressão verbal e física. Moreira questiona se a cultura contemporânea, com sua ênfase na liberação sexual sem julgamentos, na diluição da autoridade e na normalização da pornografia e da prostituição “soft”, contribui para a formação dessa “fera”. Ele aponta a contradição entre a promoção do consumo de prazeres e a esperança de respeito e não objetificação da mulher.
O Tempo da Família vs. O Tempo do Direito
Diante desse cenário, Moreira critica a excessiva dependência de soluções jurídicas e policiais para o feminicídio, que chegam, em geral, “depois do fato”. Ele defende o resgate do “tempo da família” e do “tempo do pai”, que atuam na prevenção e na construção de laços afetivos e de segurança. A “desconstrução da masculinidade”, tal como vista em alguns círculos, é questionada em favor de um “envolvimento virtuoso” do homem no lar, que protege a mulher e a ensina a impor limites e a ditar o ritmo das relações valiosas. A sabedoria clássica, que ensina o controle do instinto e o uso da razão, é apresentada como um caminho para evitar o embrutecimento e a violência.
“Desenraizamento” e a Urgência do Enraizamento Familiar
Citando Simone Weil, o professor descreve o “desenraizamento” como a doença da época, onde a falta de raízes na família, na religião e no trabalho leva ao isolamento e ao embrutecimento. A sociedade de relações frágeis e do consumo de pequenos prazeres é o resultado. Moreira não nutre a esperança de uma mudança radical, mas apela para um “despertar das famílias” como a saída mais urgente e a aposta comunitária para enfrentar a crise da violência contra a mulher.
Contexto e próximos passos
O tema segue em acompanhamento. Atualizaremos esta notícia caso haja novas informações oficiais.