Filosofia Evolucionista: O Desconforto e a Necessidade de Pensar por Conta Própria em Tempos de Polarização

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Vivemos um paradoxo contemporâneo: enquanto a liberdade e a diversidade são exaltadas, o espaço para o pensamento autônomo parece cada vez mais restrito. Discursos carregados de emoção, julgamentos morais apressados e alinhamentos automáticos dominam o debate público. Nesse cenário, questionar ou discordar pode ser interpretado como hostilidade, e pensar por si mesmo se torna um ato de coragem.

Termos como “progresso” e “progressismo” deixaram de ser descrições objetivas para se tornarem selos morais. Avançar, na prática, significa aderir a narrativas políticas e culturais específicas, enquanto questioná-las é visto como sinal de atraso. É neste contexto que a filosofia evolucionista se apresenta, não como um sistema fechado ou dogmático, mas como uma postura que busca compreender o ser humano em sua complexidade – imperfeito, contraditório e emocional – e vislumbrar a possibilidade concreta de sua evolução ética, intelectual e relacional.

A Premissa Fundamental: O Erro Humano

A filosofia evolucionista parte de uma premissa simples, porém frequentemente negada: o ser humano erra. Erramos ao pensar, julgar, agir e nos relacionar, impulsionados por ignorância, medo, conveniência e, por vezes, vaidade moral. A idealização excessiva do indivíduo, comum em discursos políticos e identitários, não eleva a condição humana; pelo contrário, obscurece seus limites. Quando a perfeição moral é exigida, o erro, em vez de ser compreendido, é criminalizado simbolicamente.

O evolucionismo rejeita tanto a idealização ingênua quanto o cinismo paralisante. O erro não é uma virtude, mas uma parte intrínseca da condição humana. O que define um indivíduo não é a ausência de falhas, mas a postura diante delas. Um equívoco central do pensamento contemporâneo é a confusão entre um “progresso” proclamado e uma evolução real. Nem toda mudança apresentada como avanço representa, de fato, uma melhoria.

Evolução Consciente versus Mudança Automática

A filosofia evolucionista surge também como resposta à apropriação ideológica do termo “progresso”. Evoluir, sob essa ótica, não significa avançar a qualquer custo ou romper indiscriminadamente com o passado. É um processo gradual, consciente e responsável. Diferentemente das grandes narrativas redentoras, o evolucionismo não aposta na transformação moral em massa ou em projetos coletivos de “reengenharia humana”, que historicamente têm levado a autoritarismo e violência simbólica.

É crucial distinguir a filosofia evolucionista da teoria biológica de Darwin. Enquanto esta descreve processos biológicos inconscientes como a seleção natural, a filosofia evolucionista foca na evolução ética, intelectual e emocional consciente do indivíduo. A evolução darwiniana não envolve intenção ou responsabilidade moral; a evolução filosófica, por outro lado, exige consciência, reflexão e escolha. Uma descreve como as espécies mudam; a outra, como o ser humano pode amadurecer.

Diálogo com o Estoicismo e a Contemporaneidade

O evolucionismo dialoga com o estoicismo clássico ao reconhecer a centralidade da responsabilidade individual e a limitação do controle humano sobre o mundo. Contudo, não é uma mera reedição. Enquanto o estoicismo surgiu em contextos de impérios e hierarquias rígidas, o evolucionismo emerge em uma era de hiperexposição, polarização moral e facções ideológicas. A diferença reside na abordagem das emoções: o estoicismo propõe contenção, enquanto o evolucionismo advoga pela consciência sobre elas.

A filosofia evolucionista sustenta que não há evolução ética ou intelectual possível quando o indivíduo transfere sistematicamente sua responsabilidade para estruturas externas – sejam elas o Estado, o grupo, a ideologia ou a identidade. Assumir responsabilidade sobre os próprios pensamentos, reconhecer limites, questionar crenças herdadas e buscar coerência entre discurso e prática são os pilares da evolução pessoal. Não se trata de superioridade moral, mas de lucidez responsável.

Tolerância Raciocinada e o Combate à Facçãocracia

Um dos pilares do evolucionismo é a “tolerância raciocinada”. Ela se distancia tanto da tolerância ingênua, que tudo aceita em nome de uma falsa harmonia, quanto da intolerância agressiva. A tolerância raciocinada propõe ouvir, analisar, ponderar e, então, posicionar-se. Discordar não é agredir; concordar não é submeter-se; tolerar não é abdicar do juízo crítico. Essa postura exige maturidade emocional e esforço intelectual, virtudes raras em ambientes polarizados.

A filosofia evolucionista identifica a “facçãocracia” – a substituição do pensamento pela adesão automática a grupos políticos, morais ou identitários – como um dos principais males contemporâneos. Nesses ambientes, o alinhamento prevalece sobre a verdade, o rótulo substitui o argumento e a moral se torna instrumento de poder simbólico. O evolucionismo não se opõe à política, mas à redução do pensamento à lógica de facção.

Afinidades com a Direita Moderada e o Desconforto da Lucidez

Embora não seja uma ideologia partidária, a filosofia evolucionista reconhece afinidades com princípios associados à direita política moderada, como a desconfiança em projetos redentores, o reconhecimento dos limites do poder e a defesa da liberdade de pensamento. A política, para o evolucionismo, deve servir à convivência entre humanos imperfeitos, não à imposição de virtudes compulsórias.

O evolucionista não se vê como iluminado. Ele aceita o desconforto de pensar por conta própria, reconhece suas contradições e admite a possibilidade permanente do erro. Repetir slogans não é pensar; pertencer não substitui compreender. A filosofia evolucionista não promete consenso ou felicidade plena, mas algo mais raro: lucidez responsável. Em tempos de certezas barulhentas, oferece dúvida honesta. Em contextos de moralização excessiva, reafirma a responsabilidade individual. Em uma sociedade fragmentada, aposta na reflexão como ponte possível.

Por Júlio César Brasil, filósofo evolucionista.

Reflexos para o Norte de Minas:
Em uma região como o Norte de Minas, onde o debate público muitas vezes reflete as polarizações nacionais, a filosofia evolucionista oferece um caminho para o amadurecimento do diálogo. A “tolerância raciocinada” pode ser um antídoto contra a radicalização de opiniões em Montes Claros e demais cidades do Norte de Minas. Ao incentivar a reflexão individual e a responsabilidade sobre o próprio pensamento, essa abordagem filosófica pode contribuir para uma sociedade mais resiliente e menos suscetível a discursos simplistas e divisivos que afetam a convivência local.

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