A Fundação do Câncer lançou uma nova versão do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, marcando um avanço significativo nas estratégias de saúde pública no Brasil. O documento atualizado visa orientar profissionais de saúde sobre a transição do exame Papanicolau para o teste molecular de DNA-HPV, uma mudança gradual que já está em implementação no Sistema Único de Saúde (SUS).
A iniciativa faz parte das ações do Janeiro Verde, mês dedicado à conscientização e prevenção da doença. A primeira edição do guia, publicada em 2022, abordava a vacinação contra o HPV e o rastreamento citológico (Papanicolau). Agora, o foco se volta para a incorporação dos testes moleculares de detecção do HPV oncogênico, aprovados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Detecção precoce com teste molecular
O novo teste molecular de DNA-HPV detecta a presença do vírus, considerado a causa principal do câncer de colo do útero, antes mesmo do surgimento de alterações celulares. Conforme explicou Flávia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, essa abordagem amplia a capacidade de detecção precoce e a efetividade das estratégias de prevenção.
“Tanto a vacinação quanto o método de rastreamento receberam muitas mudanças nesse período, principalmente em 2025”, afirmou Corrêa. Ela detalhou que a incorporação dos testes moleculares ao SUS começou em setembro do ano passado, com um processo de implementação que ocorre de forma gradativa em municípios selecionados de 12 estados. A expectativa é que, até o final de 2025, o teste de DNA-HPV se torne o método de rastreamento principal em todo o país.
Mudanças na periodicidade e público-alvo
O público-alvo do novo exame molecular de rastreamento DNA-HPV permanece o mesmo do Papanicolau no Brasil: mulheres entre 25 e 64 anos. A periodicidade também se altera: enquanto o Papanicolau exige repetição a cada três anos após resultados negativos, o teste de DNA-HPV, por sua maior sensibilidade, permite um intervalo de cinco anos entre os exames para mulheres com resultado negativo.
“Os primeiros exames são anuais e, a partir daí, são trienais”, explicou Corrêa sobre a citologia. Com o exame molecular, 99% das mulheres com resultado negativo podem ter o intervalo ampliado para cinco anos, pois a probabilidade de terem HPV, lesão precursora ou câncer é mínima.
Estratégia Global de Eliminação do Câncer de Colo do Útero
O Brasil aderiu à Estratégia Global para a Eliminação do Câncer de Colo do Útero da Organização Mundial da Saúde (OMS), com metas ambiciosas para 2030: vacinar 90% das meninas até 15 anos, rastrear 70% das mulheres com teste molecular e tratar 90% das pacientes diagnosticadas com lesões precursoras ou câncer.
A vacinação, considerada a forma mais eficaz de prevenção primária, está sendo reforçada no país. O Programa Nacional de Imunização (PNI) realiza um esforço para resgatar adolescentes não vacinados contra o HPV. A vacina quadrivalente, disponível no SUS desde 2014, protege contra os tipos de HPV mais associados ao desenvolvimento da doença.
Pilares da prevenção
A estratégia de eliminação do câncer de colo de útero se baseia em três pilares: vacinação, rastreamento e tratamento oportuno. A incorporação do teste DNA-HPV fortalece o segundo pilar, aproximando o Brasil de países como a Austrália, referência mundial na redução da incidência da doença.
O terceiro pilar, o tratamento, garante que mulheres identificadas com lesões precursoras ou câncer recebam o cuidado necessário de forma rápida e efetiva. “Não basta só mudar o teste. Toda a rede de cuidado e prevenção do câncer do colo do útero tem que estar estruturada”, ressaltou Flávia Corrêa.
Vacinação e grupos prioritários
A vacinação gratuita contra o HPV no SUS abrange meninas e meninos de 9 a 14 anos, com dose única. Além disso, inclui grupos prioritários como pessoas com HIV/Aids, transplantados, pacientes oncológicos e vítimas de abuso sexual (9 a 45 anos), e usuários de PrEP. Para mulheres de 20 a 45 anos, a vacina não está incorporada ao SUS e deve ser buscada no setor privado.
Profissionais do sexo ainda não estão incluídos nos grupos de vacinação do SUS, mas a expectativa é que possam ser contemplados em futuras expansões, dada a sua condição de grupo de risco maior.
Consulte aqui o Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, da Fundação do Câncer.