Janeiro Branco: A Luta Contra a ‘Indústria da Raiva’ e a ‘Podridão Mental’ no Brasil

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O Janeiro Branco, campanha que desde 2014 busca trazer à tona discussões sobre saúde mental, sofrimento psíquico e prevenção do adoecimento, se intensifica em um momento social marcado pelo cansaço e pela busca por recomeços. A iniciativa convida à reflexão sobre a própria história emocional e combate estigmas em torno de questões de saúde mental e psicoterapias.

Contudo, o início do ano também expõe um mal-estar contemporâneo profundo. A sensação não é apenas de fadiga pós-ano velho, mas de um esgotamento existencial, um modo de vida que pode não mais servir. Essa percepção se alinha a termos recentes como ‘brain rot’ (apodrecimento do cérebro), eleita palavra do ano pela Oxford em 2024, que descreve a deterioração mental causada pela superexposição a conteúdos banais e repetitivos.

Paralelamente, a ‘rage bait’ (isca de raiva), termo de 2025, evidencia a fabricação intencional de conteúdo para gerar engajamento através da provocação. Essas expressões não são modismos, mas retratam um estado psíquico coletivo. O ‘brain rot’ se manifesta na perda da capacidade de tolerar o silêncio, a dúvida ou a espera, exigindo excitação constante para evitar o confronto consigo mesmo. A psicanálise, com Freud e Winnicott, já alertava sobre os perigos de excitações excessivas e a necessidade de um ‘espaço potencial’ para a criatividade, um espaço hoje invadido pela demanda de reações imediatas.

A ‘rage bait’ não cria a raiva, mas a explora. Funciona como um mecanismo de captura de afetos brutos, buscando ativar reflexos em vez de promover o diálogo simbólico. O ódio, assim, deixa de ser uma experiência humana para se tornar uma função algorítmica, um sintoma em um terreno fértil no Brasil.

O cenário brasileiro, marcado pela insegurança permanente, medo difuso e desconfiança interpessoal, conforme aponta o livro ‘Brasil no Espelho’ de Felipe Nunes, contribui para a criação de sujeitos fatigados e hipersensíveis. Valores rígidos como família e fé atuam como defesas contra um mundo percebido como ameaçador. Nesse contexto, a raiva digital se torna um sintoma, alimentando um ciclo perigoso.

A relação entre a ‘podridão mental’ e a ‘indústria da raiva’ é um circuito fechado: quanto menor a capacidade de simbolizar, maior a reação; quanto maior a reação, menor a capacidade de pensar. O Janeiro Branco, portanto, pode ser encarado menos como um apelo ao otimismo e mais como um ato de resistência. Trata-se de recusar a convocação constante à raiva, sustentar o desconforto da não-resposta e proteger o escasso espaço psíquico restante. Cuidar da saúde mental, hoje, transcende a busca pela felicidade; é, fundamentalmente, aprender a não ser capturado.

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