Sísifo, na mitologia grega, foi condenado a rolar eternamente uma pedra montanha acima, apenas para vê-la despencar de volta ao ponto de partida. O Maranhão, terra de brasões e versos imortais, parece viver um destino similar, preso em um ciclo de oligarquias e escândalos que comprometem seu desenvolvimento.
Recentemente, em janeiro de 2026, um abalo significativo ocorreu no Ministério Público do Maranhão. Todos os dez promotores de justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco-MA) pediram exoneração. A decisão, segundo os próprios promotores, enfraqueceu o combate ao crime organizado no estado, ocorrendo após um parecer favorável à soltura de um prefeito e outros investigados. A operação em questão apurava a existência de uma organização criminosa e desvios de verba estimados em R$ 56,3 milhões.
### Um Legado Cultural Ameaçado
A terra que inspirou Gonçalves Dias, autor da célebre “Canção do Exílio”, e que ostenta a fama de “terra que tem palmeiras onde canta o sabiá”, tem enfrentado um inimigo persistente: a corrupção. Essa não é uma mazela nova, mas uma constante que assombra o estado.
Conforme o mito de Sísifo, o Maranhão parece eternamente refém de oligarquias. Desde o Brasil Império, o estado tem passado por um domínio de famílias poderosas. A mais notória delas, a família Sarney, manteve-se no poder de 1966 até o século XXI, moldando um sistema político conhecido como “sarneísmo”. Esse domínio de quase cinco décadas, que chegou a alçar seu patriarca à Presidência da República, deixou um rastro de corrupção, um dos piores índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, alta pobreza, assistencialismo, além de índices preocupantes de analfabetismo e mortalidade infantil. Uma longa continuidade sem reformas estruturais significativas.
### Rupturas e Continuidade das Elites
Em busca de uma ruptura, surgiu Flávio Dino, ex-governador e atual ministro do STF. Seu período à frente do governo maranhense (2015-2022) foi visto por muitos como um divisor de águas em relação ao sarneísmo. No entanto, a história recente também aponta para investigações de irregularidades em sua gestão.
Um processo judicial pede a devolução de aproximadamente R$ 141 milhões à Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap). A acusação é de que o governo do estado, durante a gestão de Dino como governador, teria absorvido recursos da estatal de forma indevida entre 2017 e 2018.
É um ciclo que remonta a tempos anteriores. O tetravô de Flávio Dino, conhecido como o “Herói de Tapajós”, também teve papel proeminente no Maranhão, auxiliando Dom Pedro II. A análise sugere que, em vez de uma revolução política, o que se observa é uma constante renovação das elites, com famílias poderosas encontrando no governo um espaço histórico de atuação.
### A Corrupção como Decomposição Institucional
Para que o Maranhão seja lembrado por figuras como Gonçalves Dias, é preciso que seus notáveis não sintam a necessidade de se exonerar de seus cargos. Isso requer a construção de um estado onde a integridade e o bem comum prevaleçam.
A palavra “corrupção”, derivada do latim “corrumpere”, significa “estragar, decompor”. Filósofos como Aristóteles e Políbio compararam seus efeitos à ação de cupins na madeira ou ferrugem no ferro: um agente de decomposição das instituições públicas. Michelangelo Bovero alerta para o risco de a corrupção se tornar a normalidade política, abrindo caminho para a “caquistocracia” (governo dos piores) e a plutocracia (governo dos ricos).
Mais do que um ilícito penal, a corrupção é um problema cultural que mina a confiança nas instituições democráticas e nas relações sociais. Ela confunde o “bem comum” (res publica) com o “bem privado” (res privata), familiar ou doméstico. A independência de órgãos como a Polícia Judiciária e o Ministério Público é fundamental. Sem ela, o governo, como um corpo, apodrece.
“Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá; sem que desfrute os primores que não encontro por cá; sem qu’inda aviste as palmeiras, onde canta o sabiá.”
*Gonçalves Dias (1823–1864)*
*Márcio Greyck C. L. Junior é pesquisador na pós-graduação em Ciências Penais e Segurança Pública do Instituto Rogério Greco.*