O renomado filósofo Mario Sergio Cortella, em um vídeo recente, trouxe à tona o milagre da multiplicação dos pães e peixes, interpretando-o como um ensinamento sobre a importância da partilha e da lógica humana para a resolução de problemas. Contudo, essa perspectiva, embora válida em seu contexto secular, pode simplificar a profundidade teológica e a mensagem central deste evento bíblico, segundo uma análise mais aprofundada baseada em fontes cristãs.
A Caridade como Virtude Teologal
A caridade, frequentemente associada à partilha e à doação, é um conceito fundamental no Cristianismo. São Tomás de Aquino, em sua obra Suma Teológica, descreve a caridade não apenas como um ato de dar esmolas ou auxílio material, mas como uma virtude teologal, uma amizade estável com Deus que se estende ao próximo. Essa disposição interior, infundida divinamente, impulsiona o amor a todos, independentemente de seus méritos, pois todos são chamados à comunhão divina.
A caridade, portanto, atua como a “forma das virtudes”, orientando toda a existência para Deus. Suas manifestações exteriores, como a doação de bens, são secundárias em relação à sua essência espiritual e ao seu fim último em Deus.
O Relato Bíblico e a Interpretação de Cortella
O episódio da multiplicação dos pães e peixes, narrado nos quatro Evangelhos, ocorreu após Jesus pregar e curar em uma região deserta, onde uma multidão de milhares de pessoas o seguia. Diante da fome, os discípulos sugeriram dispersar o povo para que buscassem alimento. No entanto, a interpretação de Cortella, baseada em uma leitura que ele atribui aos “relatos”, sugere que Jesus teria orientado os discípulos a recolherem o que havia na multidão e a distribuírem. Segundo ele, o milagre não seria a multiplicação em si, mas a capacidade humana de partilhar, que ele considera replicável.
No entanto, os relatos bíblicos (Mateus 14:13-21; Marcos 6:30-44; Lucas 9:10-17; João 6:1-15) apresentam detalhes específicos que divergem dessa interpretação. A Bíblia menciona exatamente cinco pães e dois peixes, alimentando cerca de cinco mil homens (sem contar mulheres e crianças), e ainda sobram doze cestos de alimentos. Crucialmente, não há menção nos Evangelhos de que os apóstolos tenham coletado alimentos da multidão.
A Identidade de Jesus como Centro do Milagre
A crítica à interpretação de Cortella não reside na valorização da partilha, que é, de fato, um valor cristão com raízes no Judaísmo e ampliado no Cristianismo. A questão central é a redução do milagre a uma mera lição de lógica e partilha humana. Para a fé cristã, o milagre da multiplicação dos pães e peixes é um sinal que aponta para a identidade de Jesus Cristo.
Este evento não é apenas um ato de bondade social, mas uma manifestação do poder divino. Ele revela Jesus como o Messias que sacia não apenas a fome física, mas, de forma mais profunda, a fome espiritual da humanidade. A capacidade de realizar tal milagre, de transformar poucos pães e peixes em sustento para milhares, aponta para a divindade de Jesus e sua obra redentora, oferecendo a salvação e a vida eterna.
Portanto, embora a partilha seja uma virtude importante, o milagre da multiplicação de pães e peixes transcende a esfera da cooperação humana. Ele se configura como um testemunho da natureza divina de Jesus, um prenúncio da Eucaristia e uma promessa do sustento espiritual que Ele oferece a todos os que creem.
Por Paulo Bernardelli Massabki
Arquiteto pela USP e mestre pela FAU-USP.