Nacionalismo Intelectual no Brasil: O Perigo da “Soberania” como Desculpa para a Mediocridade Acadêmica

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A máxima “o que é nacional é bom”, outrora associada a uma marca de bolachas, ganhou vida própria e se infiltrou no discurso público brasileiro. Sob o pretexto de amor à pátria e orgulho nacional, essa ideia, que já foi parodiada por Samuel Johnson como artifício de “velhacos”, tem servido de escudo para a mediocridade e o protecionismo, especialmente no ambiente acadêmico.

A “Soberania” como Novo Rótulo

Recentemente, a retórica nacionalista ganhou um novo termo: “soberania”. Este conceito, frequentemente alinhado a discussões como “olhar do colonizado” e “lugar de fala do sul global”, tem sido invocado para justificar desde a rejeição a críticas internacionais, como no caso da COP 30, até a defesa de taxações sobre produtos importados. Na prática, a “soberania” se tornou uma justificativa conveniente para defender o indefensável e proteger a “pequenez local”, como descreve o professor Jean Marcel Carvalho França.

O Impacto nas Universidades Brasileiras

No setor de humanidades das universidades, a influência dessa “soberania intelectual” é notória e insidiosa. Em nome da diversidade, inclusão ou da autonomia intelectual brasileira, autores nacionais com publicações limitadas — muitas vezes apenas teses ou dissertações — ganham espaço em detrimento de estudos clássicos e consolidados com reconhecimento internacional. Esse fenômeno cria um ciclo vicioso onde o “inexpressivo nacional” legitima o “sem expressão nacional”, empobrecendo o debate acadêmico.

O professor França aponta que essa “cota nacional” nas bibliografias acadêmicas se assemelha à antiga lei de incentivo à Música Popular Brasileira (MPB) nas rádios. A diferença é que, neste caso, o resultado é um universo intelectual restrito, com autores nacionais que só são conhecidos por sua rede de colegas, que, por sua vez, esperam reciprocidade no futuro. O resultado é um conhecimento isolado e descolado da realidade global.

O Custo para o Contribuinte e o Estudante

Quem arca com os custos dessa exaltação do “gênio nacional” são os contribuintes e os estudantes. O dinheiro público é mal empregado em pesquisas e produções acadêmicas de baixo impacto, enquanto os alunos perdem tempo precioso com conteúdos limitados. A consequência direta é a formação de egressos com um repertório intelectual e linguístico empobrecido, incapazes de dialogar com o conhecimento produzido fora das fronteiras brasileiras.

A “soberania intelectual” almejada pode levar a um cenário onde estudantes de humanas não reconheçam autores clássicos da sociologia ou filosofia, preferindo referências locais de pouca expressão. O professor França questiona o que esses diplomas “soberanos” e conhecimentos limitados significarão em um mundo cada vez mais conectado e globalizado, especialmente com o avanço da inteligência artificial.

Reflexos para o Norte de Minas

A discussão sobre a soberania intelectual nas universidades brasileiras tem implicações diretas para a formação de profissionais e pesquisadores em regiões como o Norte de Minas. A ênfase em autores e temas puramente nacionais, sem o devido diálogo com o conhecimento internacional, pode limitar a capacidade de inovação e o desenvolvimento de soluções para os desafios locais. Ao desvalorizar estudos com impacto global, corre-se o risco de formar profissionais desconectados das tendências mundiais, prejudicando a competitividade e o avanço científico da região. A busca por um equilíbrio entre a valorização da produção nacional e a incorporação do conhecimento global é fundamental para garantir um futuro acadêmico e profissional robusto para o Norte de Minas.

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