Obras de Tarsila do Amaral em Exposição Inédita em Brasília Conectam Modernismo a Debates Atuais sobre Desigualdade e Feminismo

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Uma exposição inédita em Brasília, no Centro Cultural TCU, convida o público a uma profunda reflexão sobre temas contemporâneos através do legado de Tarsila do Amaral, uma das maiores artistas do modernismo brasileiro. A mostra “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral” reúne trabalhos que abordam desde a desigualdade social e a exploração até questões ambientais e o papel da mulher na sociedade.

Com curadoria das pesquisadoras Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, a exposição organiza as obras por núcleos temáticos, fugindo da cronologia tradicional. Essa abordagem permite que o visitante perceba a evolução e a multiplicidade dos olhares de Tarsila, desde seus trabalhos figurativos nos anos 1910 até a acentuada visão social pós-década de 1930, garantindo uma compreensão do país e do mundo que a artista vivia.

Olhar Social e a Virada de Tarsila

Duas obras centrais que ilustram o tema “olhar o outro” são “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950). Essas telas expõem a desigualdade e a exploração, temas que se tornaram mais presentes na arte de Tarsila após um momento crucial em sua vida. A pesquisadora Rachel Vallego contextualiza que, após as perdas financeiras de sua família de cafeicultores com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, a artista desenvolveu um olhar mais social e passou a questionar o funcionamento da sociedade.

Tarsila, que nasceu há 130 anos, teria feito um caminho de afastamento do privilégio econômico para se consolidar como a principal artista plástica do Brasil. Conforme Karina Santiago, a influência da escola modernista é evidente em sua criatividade, como na icônica “Abaporu” (1928), obra que hoje pertence a um museu na Argentina. Os elementos religiosos e de atenção ambiental, aos poucos, se misturam às críticas que ela passa a fazer às desigualdades.

Experiência Imersiva e o Legado Feminista

A exposição também explora a formação da artista com o tema “estar no mundo”, a descoberta de cenários em “olhar o mundo” e a exploração do sonho e da imaginação no “mergulho no onírico”. Obras como “Auto-Retrato” (1923), “Palmeiras” (1925) e “São Paulo” (1924) revelam diferentes facetas de sua produção artística.

Um dos pontos altos da mostra é uma sala imersiva. Nela, um videografismo criado sem utilização de inteligência artificial, com curadoria de Paola Montenegro (sobrinha-bisneta da artista) e da cientista social Juliana Miraldi, mistura elementos recorrentes nas obras de Tarsila, como o sapo, e anima trabalhos como “A Cuca” (1924), “Abaporu” (1928), “Sol Poente” (1929), “Cartão Postal” (1929) e “Antropofagia” (1929). A intenção é atrair também o público infantil, oferecendo uma “viagem tarsiliana” lúdica e oportunidades de fotos e vídeos.

Rachel Vallego destaca ainda que Tarsila demonstrava atitudes que poderiam ser classificadas como feministas. “Ela interrompe um casamento nos anos 1910, mesmo tendo um filho. E essa família ainda vai apoiá-la para ela ter uma carreira de pintora”, afirma a pesquisadora. A exposição busca, assim, apresentar uma mulher à frente de seu tempo, um legado que Paola Montenegro deseja levar para o país inteiro, conforme sua declaração.

Reflexos para o Norte de Minas

Embora a exposição esteja em cartaz no Centro Cultural TCU, em Brasília, até 10 de maio, a obra e o pensamento de Tarsila do Amaral oferecem reflexões importantes para o Norte de Minas. A abordagem de temas como a desigualdade social, a exploração e a valorização da cultura brasileira ressoa diretamente com as realidades e desafios da região. A diretora do Instituto Serzedello Corrêa, Ana Cristina Novaes, responsável pelo centro cultural, busca promover a visita de instituições de ensino, um modelo que poderia inspirar iniciativas culturais e educativas nas cidades do Norte de Minas.

A intenção de levar a exposição para outras partes do país, conforme Paola Montenegro, abre a possibilidade de que o legado de Tarsila inspire artistas, estudantes e o público em geral na região, fomentando o debate sobre identidade, arte e questões sociais que afetam diretamente a vida dos moradores locais. A visão social e o olhar para o outro, tão presentes na obra da artista, são temas de relevância contínua para o desenvolvimento e a conscientização na comunidade do Norte de Minas.

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