Apesar de a média de estudos da população brasileira acima de 25 anos ter dobrado nas últimas décadas, passando de cerca de 5 anos em 1991 para aproximadamente 10 anos em 2024, o reflexo esperado no desempenho econômico do país não se concretizou. Essa discrepância aponta para um problema mais profundo: a baixa correlação entre a escolaridade formal e o efetivo ganho de capital humano.
O capital humano, definido como o conjunto de competências, conhecimentos e saúde desenvolvidos ao longo da vida que elevam a produtividade, não é inato. Ele é construído através de educação, experiência, treinamento e cuidados com a saúde. No Brasil, a expansão quantitativa do acesso à educação não foi acompanhada por um avanço na qualidade, comprometendo a aquisição de saberes relevantes.
A qualidade do ensino no país tem sido questionada, com baixo desempenho de estudantes em testes internacionais. A questão, no entanto, transcende os muros da escola. O ambiente familiar, o acompanhamento das tarefas e a valorização social do aprendizado e dos professores desempenham papéis cruciais no processo de aprendizagem e na formação do capital humano.
Luciano Nakabashi, doutor em economia e professor associado da FEARP/USP, aponta que a ampliação do acesso ao sistema educacional ocorreu principalmente para famílias de baixa renda, que muitas vezes enfrentam maiores desafios. Essas famílias, frequentemente mais desestruturadas, podem ter menos tempo e recursos para acompanhar o desempenho escolar dos filhos, especialmente aqueles com dificuldades de aprendizado ou problemas de saúde física e emocional.
A falta de resultados concretos na produtividade e na empregabilidade para indivíduos de ambientes de maior pobreza reforça a percepção de que a escola não necessariamente se traduz em melhores oportunidades de renda. Para que haja um aprendizado efetivo e a consequente acumulação de capital humano, é fundamental não apenas a presença física na escola, mas o acesso a um ensino de qualidade, um ambiente familiar estruturado e o reconhecimento social da importância do saber.
Além do capital humano, o país também carece de capital emocional. A confiança na própria capacidade de aprender e a resiliência para superar desafios, elementos essenciais para o desenvolvimento, dependem em grande parte do suporte familiar. Nakabashi conclui que o crescimento brasileiro exige políticas que visem a acumulação tanto de capital humano quanto de capital emocional.