Paraíso do Tuiuti Anuncia ‘Ciata: a Mãe Preta do Samba’ como Enredo para o Carnaval 2027 no Rio de Janeiro

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A Paraíso do Tuiuti, tradicional escola de samba do Rio de Janeiro, anunciou seu enredo para o Carnaval de 2027: “Ciata: a mãe preta do samba”. A decisão, que marca a primeira definição de tema para o próximo ano na Marquês de Sapucaí, homenageia Hilária Batista de Almeida, a icônica Tia Ciata, uma figura central na formação do samba e na resistência da cultura afro-brasileira.

Nascida em 13 de janeiro de 1854, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, Tia Ciata chegou ao Rio de Janeiro aos 22 anos, trazendo consigo uma filha e a força de suas raízes. Ela formou nova família ao se casar com João Baptista da Silva, funcionário público, com quem teve 14 filhos. Filha de Oxum no Candomblé e iniciada na nação Ketu, ela se tornou um pilar na Pequena África, região central do Rio que acolhia a população negra liberta e migrante.

O Legado de Hilária Batista de Almeida

A influência de Tia Ciata transcendeu o samba. Ainda adolescente, aos 16 anos, ela participou da tradicional Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira (BA), uma rede de apoio de mulheres negras que atuava na compra de alforrias. No Rio, sua residência não apenas abrigava rodas de samba que deram origem a diversas agremiações, mas também mantinha viva a fé do Candomblé, misturando-se à devoção católica em um sincretismo que é a alma do carnaval.

Conforme o historiador, compositor e enredista Cláudio Russo, em entrevista à Agência Brasil, “Ela é a história do samba, é a religião, a luta por ser uma mulher negra que nem carioca era”. Russo ressalta a capacidade de Ciata de se estabelecer, inclusive com relativo sucesso financeiro, e auxiliar outros negros que chegavam à cidade, enfrentando as adversidades de um Rio em transformação urbana que marginalizava a população preta.

Ele explicou que Ciata “acolhia numa época em que a palavra acolhimento não era nem utilizada. Ela tinha isso de enganar a polícia para manter a religião e o samba. Os ranchos passavam pela casa dela”. Esta contextualização é vital para entender o papel de resistência de Tia Ciata em um período onde o Candomblé e o samba eram combatidos pelas autoridades, e os “corpos pretos” eram expulsos do centro da cidade com a derrubada de cortiços.

A Escolha do Enredo e a Equipe

O enredo da Azul e Amarelo do Morro do Tuiuti, localizada no bairro de São Cristóvão, será desenvolvido pelo carnavalesco Renato Lage, que estreia na escola, e terá o texto assinado pelo professor Luiz Antônio Simas e por Cláudio Russo. A ideia, segundo Russo, surgiu de uma conversa familiar e foi unanimidade na diretoria da escola, liderada pelo presidente Renato Thor.

“É a hora da Tuiuti falar do matriarcado, da liderança feminina, uma mulher preta”, destacou Russo. Ele complementou que, após homenagear figuras como João Cândido e Xica Manicongo, a escola buscava valorizar o empoderamento de uma mulher negra, preenchendo uma lacuna na galeria de enredos da agremiação, que se notabilizou por temas de exaltação ao povo preto nos últimos carnavais.

O carnavalesco Renato Lage, conhecido como “mago” do carnaval, recebeu o tema com entusiasmo. “O Renato está de braços e coração abertos e falou: Cláudio, nós vamos trabalhar juntos e, com certeza, vamos fazer um grande carnaval na Tuiuti”, relatou Russo. A confiança no visual de Lage é alta, e a narrativa do enredo já tem alguns rumos definidos, que incluem a jornada de Tia Ciata da Bahia, sua iniciação no Candomblé e sua relação com o Rio de Janeiro em um período de intensa repressão cultural e social.

Samba Encomendado e Participação Familiar

Para o desfile de 2027, seguindo a tradição desde 2018, a Paraíso do Tuiuti apresentará um samba encomendado, composto pelo trio Cláudio Russo, Luiz Antônio Simas e Gustavo Clarão. A escola busca manter o alto nível de seus sambas-enredo, especialmente após o sucesso de sua última composição. “A gente está com uma responsabilidade do tamanho do mundo pelo enredo que é e pelo samba deste ano ter sido tão aclamado”, observou Russo.

A família de Tia Ciata terá participação ativa no desenvolvimento do enredo. Gracy Mary Moreira, bisneta da matriarca e presidente da Casa Tia Ciata, um ponto de cultura na Rua Camerino, nº 5, no centro do Rio, se reunirá com a diretoria da escola na próxima semana para colaborar com a narrativa. “A gente quer que participe de tudo, que seja uma narrativa que a família se veja ali também e desfile com a gente”, afirmou Russo.

O lançamento oficial do enredo e da equipe do Carnaval 2027 está previsto para o fim de semana seguinte ao aniversário da Tuiuti, que ocorre em 5 de abril, na Cidade do Samba. O lançamento do samba-enredo será em data posterior, ainda a ser definida.

Reflexos para o Norte de Minas

Embora a homenagem à Tia Ciata seja um evento do Carnaval carioca, sua relevância cultural ecoa por todo o Brasil, incluindo o Norte de Minas Gerais. A celebração de uma matriarca do samba e do Candomblé reforça a importância da cultura afro-brasileira, presente em diversas manifestações artísticas e religiosas da região. A história de resistência e legado de Tia Ciata, que acolheu e protegeu a cultura negra em um período de repressão, serve de inspiração para comunidades que, em Minas Gerais, também lutam pela preservação de suas tradições e pelo reconhecimento de suas personalidades históricas. Este diálogo cultural transcende fronteiras estaduais, fortalecendo a identidade nacional e incentivando a valorização das raízes africanas que moldaram a cultura brasileira, impactando a percepção e o respeito às manifestações culturais em todo o país.

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