Polilaminina: Aposta brasileira para regeneração medular avança para testes em humanos com cautela e esperança

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A busca por um tratamento eficaz para lesões medulares, que afetam milhões de pessoas globalmente, ganhou um novo capítulo com o avanço da pesquisa sobre a polilaminina. Desenvolvida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália, a substância está prestes a iniciar a Fase 1 de testes clínicos em humanos, um marco significativo após mais de duas décadas de estudos pré-clínicos.

A polilaminina surgiu de uma descoberta acidental da bióloga Tatiana Sampaio Coelho, líder da pesquisa. Ao tentar dissociar as moléculas de laminina, uma proteína essencial para a estrutura e sinalização celular em diversas partes do corpo, ela observou que, em vez de se separarem, as moléculas se agruparam, formando uma rede. Essa rede, a polilaminina, demonstrou um potencial notável no sistema nervoso, atuando como uma base para o crescimento de axônios – as prolongações dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais. Em casos de lesão medular, esses axônios são rompidos, interrompendo a comunicação entre o cérebro e o corpo, o que resulta em paralisia. A expectativa é que a polilaminina ofereça um suporte para a regeneração desses axônios.

Primeiros Passos em Humanos: Fase 1 e o Estudo Piloto

Após anos de testes em laboratório e em animais, com resultados positivos em ratos, um estudo piloto foi conduzido entre 2016 e 2021 com oito pacientes que sofreram lesões medulares completas. Desses, cinco apresentaram algum ganho motor após receberem a polilaminina e passarem por cirurgia de descompressão da coluna. Um caso notável foi o de Bruno Drummond de Freitas, que, após ficar tetraplégico, recuperou movimentos significativos, chegando ao nível D na escala AIS (que avalia a função motora e sensorial), permitindo que ele voltasse a andar com poucas limitações.

Contudo, os pesquisadores ressaltam a necessidade de cautela. Um artigo pré-print publicado pela equipe aponta que até 15% dos pacientes com lesão completa podem apresentar recuperação espontânea de movimentos. Além disso, diagnósticos iniciais de lesão completa podem ser influenciados por fatores como inflamação e inchaço, levando a uma reavaliação do quadro clínico.

O Caminho Rigoroso dos Ensaios Clínicos

O professor Eduardo Zimmer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que o desenvolvimento de um novo medicamento tradicionalmente envolve três fases de ensaios clínicos. A Fase 1, na qual a polilaminina está prestes a entrar, foca na segurança e tolerância do composto em um pequeno grupo de pacientes, além de estudar sua farmacocinética (como o corpo processa a substância). Para a polilaminina, esta fase será adaptada: os testes serão realizados em cinco pacientes com lesão medular aguda torácica, com idades entre 18 e 72 anos, em até 72 horas após o trauma, no Hospital das Clínicas da USP. Essa adaptação permite não apenas avaliar a segurança, mas também obter indicativos iniciais de eficácia.

A Fase 2 expandiria o número de voluntários e testaria diferentes doses para determinar a formulação ideal, enquanto a Fase 3, a etapa final e crucial, envolveria um número maior de participantes em múltiplos centros, com um grupo controle para comparar a eficácia da polilaminina com os tratamentos existentes. O objetivo é garantir que qualquer benefício observado seja realmente atribuído à substância e não a outros fatores.

Desafios e o Futuro da Polilaminina

A transição para as fases seguintes enfrenta desafios. A necessidade de administrar a polilaminina em um curto período após a lesão, combinada com o tempo prolongado para observar resultados, pode complicar o desenho do grupo controle em fases posteriores. No entanto, a legislação brasileira tem buscado agilizar o processo. A Lei 14.874, sancionada em 2024, reduziu os prazos para análise de novos estudos por comitês de ética e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A expectativa é que todas as fases de teste da polilaminina sejam concluídas em aproximadamente dois anos e meio. A coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), Meiruze Freitas, destaca a importância de manter o rigor científico, mesmo diante de tratamentos inovadores para condições sem alternativas terapêuticas eficazes. A validação científica é fundamental para garantir a segurança e a confiabilidade da polilaminina antes de sua ampla disponibilização.

Reflexos para o Norte de Minas

Embora a pesquisa com a polilaminina esteja concentrada no Rio de Janeiro e em São Paulo, os avanços em tratamentos para lesões medulares têm um potencial impacto global. Para o Norte de Minas, a esperança reside na possibilidade de que, uma vez comprovada sua eficácia e segurança, essa nova terapia possa, no futuro, estar disponível para pacientes da região. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e comitês de ética acompanharão de perto todas as etapas, assegurando que a ciência avance com responsabilidade e que novas esperanças terapêuticas sejam acessíveis à população.

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