O Brasil testemunhou recentemente um movimento singular: cidadãos comuns em marcha por convicção, sem a influência de cargos ou verbas. A manifestação, liderada por Nikolas Ferreira com o grito “Acorda, Brasil”, despertou atenção e reflexão sobre um comportamento comum do brasileiro. Somos incisivos contra o poder distante em Brasília, mas paradoxalmente dóceis diante das autoridades que atuam em nosso município, bairro ou rua. A questão é clara: de onde vem a coragem para confrontar o governo federal e a pouca disposição para cobrar prefeitos e vereadores?
A Teoria por Trás da Complacência Local
Denunciamos com frequência os escândalos, o clientelismo e a corrupção no âmbito nacional. Contudo, quando práticas semelhantes ocorrem em nosso entorno, tendemos ao silêncio, à condescendência ou a discussões infrutíferas. A teoria política oferece explicações para esse fenômeno. James C. Scott aponta que, em ambientes de proximidade, direitos impessoais dão lugar a laços pessoais. Regras são substituídas por favores, e a cobrança cívica se converte em constrangimento social. No nível local, autoridades têm nome, rosto e endereço. O vereador é visto na padaria, o prefeito é “parceiro” da associação. Criticar deixa de ser um dever cívico e passa a ser percebido como um ataque pessoal, normalizando o erro ao longo do tempo.
Democracia e a Necessidade de Punição
Adam Przeworski define a democracia de forma direta: ela não depende da virtude dos governantes, mas da capacidade de puni-los quando falham. Quando essa possibilidade se esvai, o poder deixa de responder à sociedade e se volta para a autoproteção. Hannah Arendt descreveu esse processo como a normalização do inaceitável, onde o mal avança não apenas por vilões, mas pela passividade cotidiana de pessoas comuns. O erro previsível se torna rotina, e o absurdo se consolida como paisagem.
Exemplos Práticos da Falta de Cobrança Local
Florianópolis, Santa Catarina, ilustra bem esse cenário. O presidente do Conselho de Segurança local é dirigente de uma entidade amplamente subsidiada pela Prefeitura, e vereadores frequentemente compartilham laços sociais e profissionais. O resultado é a ausência de cobrança e fiscalização, criando um ambiente propício para a neutralização da pressão sobre o poder público. Outro exemplo gritante é a antiga rodoviária da cidade, desativada e transformada em um espaço de degradação e uso de drogas. Moradores convivem com furtos e insegurança, mas optam pelo diálogo ineficaz e promessas vazias em vez de uma exigência concreta por soluções.
Assistencialismo e o Declínio da Qualidade de Vida
Paralelamente, o assistencialismo descontrolado em Florianópolis contribuiu para que a cidade se tornasse a que possui o maior número de moradores de rua no Sul do Brasil. A cidade apresenta sinais de deterioração na limpeza, segurança e organização, conforme relatado diariamente em grupos de WhatsApp. No entanto, a cobrança efetiva por parte dos cidadãos é mínima. Aqueles que se manifestam de forma mais incisiva são frequentemente rotulados como radicais ou inconvenientes. No plano local, prega-se a união para evitar a cobrança de amigos e vizinhos, enquanto em nível federal, a exigência é por punição severa.
Proximidade sem Fiscalização Gera Complacência
Embora defenda o poder local por sua potencial capacidade de resposta, reconheço que a proximidade sem fiscalização resulta em complacência. A união sem cobrança se transforma em cumplicidade. A conversa permanente pode oferecer conforto moral e a ilusão de ação, mas não resolve os problemas. A democracia, em sua essência, requer a possibilidade de responsabilizar os governantes quando erram. A ausência dessa vigilância permite que o poder se torne autorreferente, ignorando as demandas sociais.
Por Bruno Souza, empresário e mestre em Sociologia Política, ex-secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis (SC), deputado estadual (2019-2023) e vereador na capital catarinense (2017-2019).