Por que o mundo precisa da fé cristã? A ausência da bondade como termômetro social

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A pergunta “Por que o mundo precisa do Superman?”, feita pela jornalista Lois Lane no filme “Superman: O Retorno”, ecoa uma inquietação profunda sobre a necessidade de salvadores em tempos de desamparo. Essa indagação, inserida em um contexto de pessimismo e fragilização da vida humana, serve como um espelho para entendermos a relevância da fé cristã em nossa sociedade contemporânea. A ausência de um “salvador” – seja ele um super-herói ou um ideal moral – pode levar a um mundo adoecido, marcado pela dessensibilização ao sofrimento alheio e por um crescente sentimento de desconfiança.

A incerteza ontológica, descrita por Zygmunt Bauman, e a vulnerabilidade existencial tornam-se componentes da identidade coletiva. Nesse cenário, a liberdade sem segurança compromete a esperança, alimentando o medo e a ansiedade. A destranscendentalização da esperança, a perda de um fundamento que ampare o sofrimento, transforma o outro em um potencial “demônio”, como teorizou Jean-Paul Sartre. O Superman, nesse contexto, representava mais do que um protetor físico; era um símbolo de amparo ontológico para uma esperança fragilizada pela mobilidade do medo social.

A análise da figura mítica do Superman, o “deus mortal” hobbesiano que servia de escudo à vida humana, pode ser transposta para a compreensão da fé cristã. A ausência dessa fé no mundo se manifesta, primeiramente, pela falta de bondade humana. O apóstolo Paulo, em Filipenses 4:5, enfatiza que a fé cristã se revela no comportamento moral, na bondade que deve ser conhecida por todos. A desconfiança excessiva entre as pessoas é um sintoma claro da carência dessa bondade fundamental.

Em um mundo cada vez mais marcado pela racionalidade transgressora, onde o individualismo e o hedonismo prevalecem, a fé cristã emerge como um contraponto. A cultura da “razão transgressora”, alimentada pela cobiça (epithymia) e pelo narcisismo, leva à compulsividade alienante e à perda da noção de limites éticos. O comportamento narcísico, que impede o desenvolvimento de relações sociais saudáveis, e a busca incessante por gratificação imediata desvalorizam a bondade, tornando-a um contravalor em uma sociedade adoecida.

A fé cristã, ao contrário, propõe um ethos de entrega do eu ao outro, desfuncionalizando a lógica do capital libidinoso e promovendo a solidariedade orgânica. A bondade, quando opera como lógica de interação preponderante, gera encontros interindividuais com maior encaixe afetivo e menor potencial ameaçador. Essa prática da bondade, exemplificada na parábola do bom samaritano, desmantela o medo ontológico e a tensão social, reconfigurando as interações humanas por meio de uma gramática moral de sentido interterapêutico.

A fé cristã, quando compreendida e praticada em sua essência, oferece um antídoto contra a degeneração da consciência coletiva. Ela revitaliza a esperança, pois a vida do outro passa a ser vista não como ameaça, mas como parte integrante de uma mega solidariedade. A bondade se torna o referencial para a compreensão da realidade do outro, superando o egocentrismo. Enquanto a figura do Superman representa uma projeção mítica de um ideal cultural, a fé cristã oferece um modelo de existência encarnado e histórico, capaz de curar o mundo de sua enfermidade social e existencial.

A busca por um novo horizonte, por um modo de reverter a paisagem de aparente irreversibilidade, é uma constante na condição humana. Diante da inevitabilidade da finitude e da angústia inerente à existência, a fé cristã oferece um caminho para a autotranscendência e a imortalização não por meio de superpoderes, mas pela prática da bondade e pela entrega ao próximo. Em suma, a fé cristã é essencial porque o mundo necessita da bondade humana para manter a salubridade operacional das interações sociais e a esperança de um futuro mais justo e solidário.

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