Um embate público entre a presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Maria Elizabeth Rocha, e um dos ministros da Corte, expôs as profundas divergências sobre a interpretação do período da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985). A controvérsia iniciou após a ministra, durante evento em memória ao jornalista Vladimir Herzog em São Paulo, pedir perdão às vítimas de tortura, desaparecimento e morte durante o regime. O ato foi aplaudido pelo público presente na Catedral da Sé.
Em uma sessão posterior no tribunal, um ministro criticou a fala da presidente, sugerindo que ela deveria aprofundar seus estudos sobre a história do STM antes de fazer declarações de cunho político. A ministra, por sua vez, classificou a postura do colega como uma agressão desrespeitosa e com tom misógino. A troca de farpas, embora breve, gerou repercussão na imprensa, com relatos apontando para uma tentativa de silenciamento da ministra e defesa da democracia, enquanto outros indicaram resistência no STM à punição de militares envolvidos em golpes.

Visões Antagônicas sobre o Regime Militar
O episódio reflete a polarização histórica no país sobre o regime militar. De um lado, defensores apontam o combate ao comunismo, crescimento econômico e preservação das instituições. Do outro, críticos destacam a supressão da democracia, violações de direitos humanos, censura e repressão. Essas visões antagônicas persistem há décadas, mas faltam debates científicos que busquem superar as divergências.
A discussão sobre o passado, segundo o artigo, poderia ter se transformado em um debate acadêmico produtivo, considerando a qualificação de ambos os magistrados. O ministro possui formação militar e jurídica avançada, com pós-graduações, enquanto a ministra é doutora em Ciências Jurídicas. A oportunidade de um intercâmbio de conhecimento, que poderia envolver universidades e pesquisadores civis e militares, foi, segundo o autor, desperdiçada.
Revisionismo e a Busca por Diálogo
O autor do texto, Antônio Carlos Will Ludwig, professor aposentado da Academia da Força Aérea, enquadra esses eventos na categoria de revisionismo, que propõe novas interpretações sobre temas estabelecidos. Ele sugere que a polarização atual, especialmente no âmbito do STM, é prejudicial à democracia e que um debate aberto e científico seria mais benéfico.
A falta de eventos que promovam a discussão e o entendimento mútuo entre diferentes perspectivas históricas é vista como um obstáculo para a superação de inconciliabilidades persistentes. A polêmica entre os ministros do STM, embora tenha gerado manchetes e opiniões diversas, pode ter representado uma oportunidade perdida para um diálogo construtivo sobre um período crucial da história brasileira.
Reflexos para o Norte de Minas
Embora a discussão tenha ocorrido em Brasília, no âmbito do Superior Tribunal Militar, a forma como o Brasil lida com seu passado, especialmente o período da ditadura militar, tem implicações em todo o país. No Norte de Minas Gerais, como em outras regiões, a memória e a interpretação desse período influenciam debates sobre direitos humanos, justiça e a consolidação da democracia. A polarização observada no STM pode se refletir em discussões locais sobre a atuação das Forças Armadas e a importância da preservação da memória histórica para as futuras gerações.