Riscos financeiros e falta de depósito definitivo para rejeitos colocam operação de Angra 1 e 2 em xeque após 2030, alertam autoridades
Audiência na Comissão Mista de Orçamento trouxe alertas sobre investimentos urgentes, atraso do projeto Centena e dificuldades da Eletronuclear
Autoridades do governo e auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) afirmaram, em audiência da Comissão Mista de Orçamento (CMO) nesta semana, que a continuidade das operações das usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2 corre risco se não houver solução imediata para problemas financeiros relacionados ao gerenciamento de rejeitos e à sustentabilidade da Eletronuclear.
Investimentos necessários para manter Angra 1
O auditor do TCU André Carneiro informou que só a licença para a extensão da vida útil de Angra 1 depende de cerca de R$ 3 bilhões em investimentos. Segundo ele, a estatal Eletronuclear teve de recorrer a empréstimos de curto prazo para se manter neste ano — uma situação comparada ao uso de crédito rotativo de cartão para pagar despesas essenciais — e enfrenta risco real de insolvência, conforme afirmou o diretor da empresa, Alexandre Caporal.
Uma alternativa mencionada na audiência seria a emissão de debêntures no valor de R$ 2,4 bilhões, porém essa operação depende de um posicionamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre um acordo entre a Eletrobras, agora privatizada, e a União.
Rejeitos nucleares e atraso do Centena
O TCU também acendeu o sinal sobre o armazenamento de rejeitos nucleares. Atualmente, materiais provenientes das usinas, de hospitais e de indústrias estão em depósitos provisórios com capacidade limitada. O único depósito definitivo disponível no país é o que recebeu os rejeitos do incidente com césio-137 em Goiânia, em 1987.
O Centro Tecnológico Nuclear e Ambiental (Centena), projeto previsto originalmente para 2013 e agora projetado para 2030, é apontado como peça-chave para solucionar o problema. Sem esse depósito, as usinas e outras fontes de material radioativo ficam dependentes de soluções temporárias, aumentando riscos operacionais e ambientais.
Impacto das indefinições sobre Angra 3 e fragilidade financeira da Eletronuclear
Além dos custos diretos, as indefinições sobre a usina Angra 3 — com obras paradas por mais de dez anos — consomem recursos significativos, estimados em cerca de R$ 1 bilhão por ano, segundo Alexandre Caporal. Esse ônus agrava a fragilidade financeira da Eletronuclear e reduz a capacidade da empresa de investir em manutenção, segurança e soluções para os rejeitos.
Os debatedores, entre eles o deputado Carlos Zarattini (PT-SP), destacaram que embora alguns desses problemas tenham “valor financeiro menor” que o da conclusão de Angra 3, são riscos imediatos e pouco visíveis que podem gerar consequências econômicas, financeiras e até físicas se não forem tratados com prioridade.
Orçamento, obras e fiscalização
A audiência foi realizada no contexto da análise do PLN 15/25, que trata de obras com indícios de irregularidades e que podem ter recursos suspensos no Orçamento de 2026. O TCU citou, por exemplo, a obra da BR-040 na subida da Serra de Petrópolis, cujo problema teve solução com nova licitação de concessão, mas que segue sob avaliação da comissão.
Também foi relatada a escassez de recursos para estruturar a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear, criada este ano para fiscalizar o setor, e a ocorrência de pelo menos três incidentes recentes envolvendo rejeitos nucleares, o que reforça a urgência de investimentos e de decisões institucionais.
Parlamentares da CMO irão analisar os impactos orçamentários e as possíveis medidas para mitigar os riscos apontados, enquanto o setor aguarda definições judiciais e encaminhamentos do governo sobre financiamentos e a implantação definitiva do Centena.