Surto de Doença de Chagas em Ananindeua (PA) acende alerta para contaminação oral no Brasil

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Dados preliminares do Ministério da Saúde apontam que 774 casos de Doença de Chagas foram notificados no Brasil em 2025. Em Ananindeua, no Pará, o cenário é alarmante: até o momento, foram confirmados 42 casos e quatro óbitos, levando o Ministério a decretar surto no município. Apesar disso, especialistas da Fiocruz descartam risco de epidemia em nível nacional, mas alertam para a crescente incidência de surtos associados ao consumo de alimentos contaminados pelo protozoário *Trypanosoma cruzi*, agente causador da doença.

### Transmissão oral em foco

A principal via de contaminação em destaque é a oral, diretamente ligada ao consumo de alimentos que podem ser contaminados pelas fezes do inseto vetor, conhecido como “barbeiro”, ou durante o processamento de produtos como o açaí. Fred Luciano Santos, farmacêutico bioquímico e pesquisador do Instituto Gonçalo Muniz (Fiocruz Bahia), ressalta que essa forma de transmissão tem sido a causa de diversos surtos recentes, especialmente em regiões metropolitanas como a de Belém. “Especialmente em áreas com condições sanitárias mais precárias, com produção artesanal de alimentos e sem fiscalização adequada”, pontua Santos, reforçando o risco de novos surtos no país.

### Medidas de prevenção e segurança alimentar

Para mitigar a disseminação da doença, a recomendação é clara: consumir produtos de origem confiável e garantir a adoção de boas práticas de higiene em toda a cadeia produtiva. Roberto Saraiva, médico infectologista e pesquisador do Laboratório de Pesquisa Clínica em Doença de Chagas (LapClin Chagas) da Fiocruz, enfatiza a importância de adquirir alimentos de preparadores que sigam padrões adequados. “Para frear a transmissão oral da Doença de Chagas é necessário que a população procure comprar o seu alimento de quem o prepara adequadamente. Com isso, você pode reduzir a forma de transmissão da doença de Chagas. Através da colheita adequada, do transporte adequado, do preparo adequado do alimento, para que não haja contaminação em nenhuma das etapas do ciclo do açaí”, explica Saraiva.

Medidas como a capacitação de manipuladores de alimentos, como a realizada pelo projeto Casa do Açaí em Ananindeua, e a fiscalização de decretos estaduais que visam boas práticas de manipulação, são essenciais para o controle. Embora outras vias de transmissão, como transfusão de sangue, doação de órgãos e transmissão congênita, sejam eficientemente combatidas pelo rastreio sorológico e acompanhamento pré-natal, a vigilância sobre alimentos contaminados é crucial.

### Desigualdade social e a persistência da doença

Os pesquisadores destacam que a Doença de Chagas, apesar de ter sua transmissão vetorial reduzida ao longo dos anos, persiste em áreas com precárias condições sanitárias, de moradia e com acesso limitado a serviços de saúde. A presença de casas com estruturas que facilitam o esconderijo e a reprodução do barbeiro, como paredes de barro e telhados improvisados, contribui para a manutenção da doença. Fred Luciano Santos descreve a enfermidade como “uma doença negligenciada que nunca deixou de existir”, clamando por políticas públicas focadas em vigilância epidemiológica contínua, monitoramento e melhoria das condições de moradia.

### Diagnóstico e tratamento precoces são vitais

A doença de Chagas possui uma fase aguda, que pode ser assintomática ou apresentar sintomas como febre, mal-estar e inchaço, e uma fase crônica, que pode evoluir para quadros cardíacos ou digestivos graves. O diagnóstico e tratamento precoces, com o medicamento benzonidazol fornecido gratuitamente pelo SUS, são fundamentais para evitar a progressão para formas graves da doença e o óbito.

### Reflexos para o Norte de Minas

Embora o surto de Doença de Chagas tenha ocorrido no Pará, a notícia serve como um alerta para todo o país, inclusive para o Norte de Minas Gerais. Regiões com produção artesanal de alimentos e condições sanitárias que demandam melhorias podem se tornar vulneráveis a surtos semelhantes. A vigilância sanitária e a conscientização da população sobre os riscos da contaminação oral por alimentos são medidas preventivas essenciais que devem ser fortalecidas em todas as localidades, garantindo a segurança alimentar e a saúde pública em Montes Claros e em todo o estado.

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